Os tais 7x1

Mal podia imaginar o que me reservavam aqueles próximos 170 minutos no ar

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Brasil 1 x Alemanha 7, pela Copa do Mundo 2014, no Mineirão, em Belo Horizonte

Acaba de ser publicada na Alemanha uma versão atualizada do best-seller "7:1 Das Jahrhundertspiel", ou seja, "7x1, o jogo do século". Nos momentos que antecedem um novo encontro entre a Seleção e a "Mannschaft", desta feita em Berlim, a ninguém escapa evocar umas tantas lembranças. Se elas são muito boas do lado de lá, e péssimas do lado de cá do Atlântico, vale ressaltar que o século está só começando e que muita coisa deverá ocorrer nas próximas décadas, inclusive no futebol. Mas é forçoso admitir que quem viveu a data, e se tinha entre 10 e 100 anos, não haverá de esquecer, minuto após minuto, o que aconteceu no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, na tarde de 8 de julho de 2014. Por razões que conto a seguir, fui poupado de espetáculo tão degradante para as cores nacionais e, por justas razões, tão traumáticos para a autoestima brasileira que, desde então, custou a se aprumar. Coincidência ou não, foi uma queda livre só, até o "impeachment" de Dilma Vana. Mas vamos aos fatos. 

Pois bem, alguns dias antes da catástrofe, eu assistira ao vivo, no Rio de Janeiro, a um França x Alemanha quase decepcionante. Foi um jogo dito de técnicos e sem grande emoção. 1x0 para a Alemanha assinalou o momento em que os gauleses cometeram a falha fatal. Na sequência, num restaurante carioca, foi a vez de ver o Brasil ganhar da Colômbia por 2x1, em jogo acontecido em Fortaleza, que culminou com uma entrada criminosa de um zagueiro colombiano em Neymar, o que neutralizaria nossa esperança de surpreender os adversários no jogo seguinte. Mesmo assim, houve lauta comemoração no Rio de Janeiro e lembro de ter voltado para o hotel acusando os efeitos de comida e bebida em excesso, o que me valeu um regresso sonolento no curto voo para São Paulo. Nada se comparara em dramaticidade até então ao Brasil x Chile, a que eu assistira do Recife pela TV. Fosse como fosse, decidi que faria duas reuniões em São Paulo e subiria para Pernambuco para as fases finais do certame. 

Ora, com tanto sobe-desce, numa época em que os voos domésticos podiam estar bem caros – embora menos do que se imaginava a princípio –, entrei num site para ver se achava alguma pechincha e eis que me deparei com um voo da TAM que partiria de Guarulhos para o Recife no meio da tarde, o que me daria tempo bastante para fazer a reunião que faltava, almoçar e de lá seguir para o aeroporto. Foi só na manhã do dia 8 que entendi porque a passagem era tão barata. Ora, o jogo Brasil x Alemanha, que tanto prometia, ocorreria exatamente enquanto estivesse voando. Começaria, mais precisamente, se a decolagem acontecesse no horário, exatamente uma hora depois de minha partida de Guarulhos, o que significava que estaríamos sobrevoando Belo Horizonte, o palco da tragédia, no momento do pontapé inicial. Não tinha problema, pensei. Afinal, para trás tinham ficado os tempos em que eu achava que minha torcida e minha energia eram vitais para que ganhássemos um jogo.  

Combinei com o motorista que ele me pegaria no restaurante duas horas antes da decolagem. Como meu amigo Carlos Eduardo Queiroz estava desimpedido, já que a esposa e a filha estavam na Itália, perguntei se tinha um local a sugerir na região da Avenida Paulista. Movido talvez pela nostalgia da família, ele sugeriu que fossemos até uma certa "Cantina do Sargento", na Rua Pamplona. Embora passe sempre pela porta, nunca mais voltei a entrar no pequeno restaurante ornado de camisas de futebol e que serve uma certa culinária ítalo-paulistana que pode até agradar turistas, mas que não convence quem tem um mínimo de paladar. O toque característico deles é amontoar saladas em travessas ciclópicas, escoltadas por um pão de alho que, se duvidar, é a única coisa que se salva. Depois vem uma massa empapada, e, se for o caso, carne ou peixe que deixam muito a desejar. Comemos mal de uma ponta a outra e tive o primeiro prenúncio de que algo funesto estava se armando sobre os céus do Brasil.

Na calçada, ainda comentei com meu amigo que estava aliviado de estar voando à  hora do jogo. Vinte anos antes, em 1994, assistíramos em minha casa ao Tetra contra a Itália, na Copa dos Estados Unidos, e comemoráramos profusamente. "Acho que dessa vez não teremos a mesma sorte. A Alemanha não me impressionou, mas vencê-la sem Neymar pode ser muito difícil. Se temos de perder, melhor que seja contra eles do que contra os argentinos na final. Porque entre Holanda e Argentina, vai dar Argentina, pode escrever". Na sala de embarque, metade dos passageiros envergava a camisa da Seleção e quase que só se conversava sobre futebol. Apesar de muitos ali terem orçamento apertado, quase todo mundo tinha uma lata de cerveja na mão, indiferente aos preços extorsivos do aeroporto.  Abri um livro que nada tinha a ver com o tema e vi com alívio que o voo estava no horário. Isso me permitiria chegar ao Recife na hora mesma das comemorações que os amigos preparavam, pensei. 

E foi assim que decolamos. Mal podia imaginar o que me reservavam aqueles próximos 170 minutos no ar. Mas agora preciso trabalhar e amanhã conto o resto. 


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