Reconhecimento

Certo mesmo é que o ser humano padece de algumas carências

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Certo mesmo é que o ser humano padece de algumas carências, avalia Fernando Dourado Filho

Quem me conhece, sabe que não sou muito de afagar animais. Seja ele cavalo, passarinho, gato ou cachorro. Engraçado é que eles percebem que não fomos feitos um para o outro. Mesmo o mais engraçado dos cães, logo se entediará com minha atenção fingida e buscará plateia mais receptiva para suas estripulias. Isso não me impede de observá-los atentamente e de perceber-lhes a imensa frustração ao se dar conta de que não estão causando impacto. 

As coisas são menos prosaicas quando se trata de gente. Lá pelos anos 1980, quando as sessões de feedback começaram a se tornar rotineiras nas empresas, as pessoas se preparavam com grande antecedência para o dia. Não importa que trabalhassem juntas há muitos anos, esta ocasião podia ser torturante tanto para o avaliado quanto para o avaliador.       

Lembro de um caso que valeu boas risadas numa grande indústria . O presidente da empresa falou a um de seus diretores que seu pessoal vinha trabalhar muito mal vestido. Enfatizou que a despeito do ambiente fabril, impunha-se traje mais fino, de melhor qualidade. O diretor, um descendente de italianos pouco dado a mesuras, tinha de passar o recado para baixo, na pessoa de seu principal gerente, de quem era amigo pessoal. 

O que foi que aconteceu, então? Ora, incomodado em sentar e criar a solenidade adequada para o tal feedback, abriu a porta do avaliado e, sem lhe dar muito tempo para pensar, gritou: "Mario, disseram que você e seu pessoal têm de se vestir melhor, pô. Vão lá fazer um crediário na José Silva. Nem que seja para que o chefão pare de encher o meu saco". E bateu a porta, deixando para trás um Mario perplexo que, no mesmo tom, vocalizou o recado para baixo.   

Certo mesmo é que o ser humano padece de algumas carências. E a falta de reconhecimento, tome ela a forma que tomar, será sempre um problema. Uns dizem que essa necessidade psicológica está ancorada lá atrás, quando nossos ancestrais eram vassalos de alguém. Um afago, por pequeno que fosse, teria sobre nós o efeito de um carinho na barriga do cachorro ou um cafuné nos gatos arredios. 

Assim sendo, conheci funcionários que cronometravam minutos para fazer coincidir encontros nada fortuitos no elevador. E então se saíam com perguntas assim: "Está zangado comigo? Fiz alguma coisa de errado?" Diante da negativa, em se tratando desse país de afagos onde vivemos, rebatiam: "Não, não é por nada. É que nunca mais almoçamos, nunca mais veio à minha mesa filar um cigarro". Então marcávamos uma cerveja para mais tarde e tudo ficava sanado.  

Outros são mais casca dura, de feitio mais implacável. Baixam a cabeça, concentram-se em seu trabalho e pouco se lixarão para as avaliações dos superiores. Estando em paz com sua consciência e sendo bonificados pela performance, dão-se por satisfeitos. Frequentemente são partidários da tese de que, no fundo, "não há gratidão que não possa se manifestar sob forma de dinheiro", como dizem os ingleses. 

A sociedade digital, contudo, tem criado uma geração de sôfregos por "likes", o que não deixa de ser um feedback positivo. E isso vem se dando em todas as esferas. Mais do que nunca, os políticos estão buscando o aplauso fácil que, como sabemos, é viciante. Ele libera dopamina, o hormônio do bem-estar. O aplauso fácil tem a tipologia de uma droga que não é inalada ou aspirada: ela brota da ponta de nossos dedos. 

E o traficante é o celular. 


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