Por que não?

Tem vezes que não há uma só alma disposta a prosear em torno de um copo de cerveja nessa imensidão de luzes

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Tem vezes que não há uma só alma disposta a prosear em torno de um copo de cerveja nessa imensidão de luzes

Semana passada, postei aqui mesmo no blog "Ao redor do mundo" um e-mail triste que me chegara do Japão (relembre aqui). Publiquei-o depois de editado no Facebook e, por conta dele, recebi mensagens pesarosas de gente que lamentava a sina de meu amigo Oki, acometido de doença terminal. A ele, escrevi uma cartinha calorosa, mas inevitavelmente melancólica. Como poderia ser diferente? No entanto, numa prova de que a vida pode ser também uma dádiva, como costumava dizer o recém-falecido Stephen Hawking, recebi  na terça-feira (13) mesmo mensagem de uma pessoa brilhante, uma das figuras mais iluminadas de sua geração, e de quem fiquei amigo depois de uma noitada que jamais esquecemos. Na verdade, toda vez que nos vemos, sempre a rememoramos. Ora, se as notícias do Japão falavam do fim de um ciclo, as de ontem acenavam com todo o oposto: o abrir das cortinas ao esplendor da vida. Quer ver?  

"Meu querido amigo Fernando, tenho grandes novidades. Pode ser que nosso próximo encontro seja em terras nordestinas! Estou me mudando para Aracaju. Com dois filhos pequenos e (após) uma profunda reflexão sobre minha relação com o tempo, tomei esta decisão. Fui aprovado em primeiro lugar no concurso para professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe e estou muito feliz com a mudança. Continuarei com fortes vínculos, pessoais e profissionais, em São Paulo, o que me trará frequentemente à cidade. E também seguirei minhas andanças constantes pelo mundo árabe. Você é uma pessoa querida e fico feliz em compartilhar a noticia contigo. Já estou pensando em dar um pulo em Garanhuns, Pernambuco, para conhecer a terra que pariu o mestre das palavras, Dourado como o sol daquele grande Nordeste. Grande abraço".

Esfuziante de alegria, respondi na hora, sem medir as palavras, como acontece quando elas brotam diretamente do coração: "Meu amigo, É mesmo uma notícia maravilhosa. Ainda há pouco eu estava pensando sobre como seria bom passar pelo menos um ano sabático em Garanhuns. Aliás, penso nisso o tempo todo. Você vai adorar Aracaju. Minha família vai muito lá porque tem uma loja na cidade. O povo é ótimo, come-se bom caranguejo e as crianças vão ter extensas faixas de praia em Atalaia. Povo gregário, que gosta de conversa e cultura, terra de Ayres Brito, você vai marcar a cidade e ela você. Você vai ver que será mil vezes mais fácil nos encontrarmos lá do que aqui em São Paulo, onde só agendamos cancelamentos. Mantenha-me informado que quero participar dessa alegria. Melhor ainda se pudermos nos encontrar em Garanhuns, talvez no Festival de Inverno de 2018. Abraço saudoso". 

Sei não, mas acho que deveria procurar o psiquiatra Dr. Uracy Simões que teve a paciência de me receber durante alguns meses em seu consultório da Vila Madalena. Será que ele pode me ajudar a desvendar esse mistério, tão ou mais sério do que as depressões de minha ex-namorada? Não posso mais conviver com essa vontade recorrente de voltar à minha terra e, ao mesmo tempo, ficar inerte, como se anestesiado diante dos sinais de dor e resplendor da vida. Vendo a alegria de meu amigo brotar de cada linha, não posso me furtar à pergunta: por que não eu? O que será que me prende de forma tão irredutível a São Paulo, além dos tais grandes ideais transformadores do mundo? E se eu aplicasse toda essa energia simplesmente na organização de uma vida pacata, sem tanta viagem, com uma farta biblioteca e uma adega bem pensada? Por que não apostar nas pequenas transformações pessoais? 

Amo São Paulo, sim. Mas cá entre nós, ela é mesmo a "capital da solidão", no feliz dizer de Roberto Pompeu de Toledo. Tem vezes que não há uma só alma disposta a prosear em torno de um copo de cerveja nessa imensidão de luzes. Desse problema, tenho certeza, meu amigo não sofrerá em Aracaju.  


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