O impacto da governança na gestão da BRF

Conflitos afastam a operação da estratégia do negócio

Por Viviane Doelman*

Viviane Doelman analisa o impacto da governança na gestão da BRF

A importância da Governança Corporativa e o papel do Conselho de Administração têm sido subestimados. Até grandes corporações, como a gigantesca BRF, montam suas estruturas de governança, mas descuidam das melhores práticas que garantem benefícios para a gestão e a longevidade do negócio.

O caso BRF, e a reiterada tentativa de destituição de Abílio Diniz do cargo de presidente do Conselho, deixa claro o impacto que a Governança Corporativa pode ter nos resultados da empresa – positiva ou negativamente. Na produtora de aves e alimentos, que acumula prejuízos sem precedentes, há um claro desalinhamento entre os membros do Conselho – representantes de grupos acionistas – e entre o Conselho e os gestores. No centro do furacão, um dos mais conhecidos empresários brasileiros personifica a grande sombra projetada sobre o futuro da gestão do grupo. 

O grupo vive um fenômeno muito comum: a falta de calibragem constante. Tem sido notória a falta de estímulo ao debate e ao diálogo em prol da companhia, como antídoto contra a defesa de interesses próprios. A ponto de, em reunião de Conselho no dia 5 de março passado, dia em que foi deflagrada a segunda fase da operação Carne Fraca e que resultou na prisão do ex-presidente da empresa, aliado do presidente do Conselho, o assunto com que fez com a empresa perdesse R$ 5 bilhões de valor de mercado sequer fosse colocado em pauta “por falta de informações”. O grupo caminha para um cenário em que o conflito estabelecido afasta a operação da estratégia do negócio e alimenta ainda mais os confrontos instalados.

Infelizmente, a Governança Corporativa ainda não é vista como elemento chave da gestão para a maioria das empresas. Acabou se banalizando por modismo. Obviamente por estar mais do que provado que empresas com uma boa estrutura de governança obtêm inúmeros benefícios, dentre os quais o atingimento consistente de resultados, a perpetuação da organização e a capacidade de atrair investidores e capital qualificado. Todas razões excelentes para se aderir às práticas de forma apropriada. 

Para que se capitalizem os conceitos de Governança Corporativa na prática, em específico no que diz respeito aos Conselhos, é necessário que ao se constituir este fórum, seja ele de Administração ou Consultivo, avalie-se sua dimensão. Deve-se ponderar efetivamente se as pessoas que estão sendo consideradas são as mais adequadas, se são aquelas que conseguirão levar a empresa para os resultados esperados, se têm a mentalidade certa para o momento que a organização está vivendo. 

Este é um órgão que não pode servir para acomodar “ex-executivos da empresa, por gratidão”; familiares que precisam ter sua retirada justificada por alguma atividade; que querem por preciosismo estar ligados à empresa; ou ainda “figurões” que emprestam seu nome para a organização, mas que não trabalham por ela. O Conselho deve trazer um misto de pessoas e perfis que trabalhem pela e para a empresa, conciliando interesses de acionistas, estabelecendo visão estratégica de longo prazo e auxiliando a diretoria executiva a atingi-la. Deve avaliar o funcionamento da companhia de forma holística para impulsioná-la em direção a sua missão.

Todo este cuidado e o uso devido da Governança certamente gerarão resultados que satisfarão acionistas e toda a comunidade que interage com a empresa, por meio do pagamento de dividendos para os primeiros, e a geração de oportunidades de negócio e empregos para todos os demais. 

*Sócia gerente da 3G Consultoria, de Curitiba, e especialista em Governança Corporativa pela Fundação Dom Cabral (FDC).

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comentarios




Jorge

Ótimas e esclarecedoras considerações sobre o caso em particular e sobre a importância da Governança Corporativa de forma abrangente. Parabéns!

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