Marcado para morrer

Enquanto a visitante não vem, vou curtindo a vida, evitando as frituras, os carboidratos noturnos e a bebida barata

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho faz reflexões sobre a morte

Há cerca de dois anos, uma amiga nordestina que se julga profunda conhecedora do corpo e da alma humana, abordou-me num restaurante e, de olhos arregalados, vaticinou: "Passa da hora de você fazer uma dieta séria. Você engordou muito e desse jeito vai morrer logo". Estava já na iminência de perguntar como é que o pai dela, que fora mais gordo do que eu a vida toda, vivera mais de 80 anos. Quem sabe não me caberia sorte igual? Mas resolvi apenas agradecer a preocupação e creditá-la à amizade e às boas intenções. Retomei o almoço interrompido, mas não pedi sobremesa naquele dia. 

Meses mais tarde, foi o médico que tentou me explicar porque meus bons exames clínicos nada significavam: "Você é alto, mas mesmo assim está com uns 30 quilos de excesso. De um momento para outro, pode passar mal e morrer". Perguntei-lhe, mal humorado, se ele próprio estava imune a essa surpresa, apesar do corpo raquítico, quase franzino. Concordou que não, mas que as chances eram bem menores e que eu já adentrara uma faixa de risco em que um descuido poderia ser fatal. Fiquei fulo porque os exames eram bons e só ouvi notícias desmancha-prazeres. Esses caras nada entendem de motivação.  

Ultimamente, falaram-me que quando quisesse postar alguma coisa na rede social Instagram –talvez a mais chata de todas elas –, poderia fazê-lo de viva voz, deixando-me filmar. O mesmo poderia acontecer no Facebook, se pedisse para que me filmassem com o telefone na horizontal. Como tenho um lado meio exibicionista, achei ótima a ideia e gravei umas diatribes para me distrair e matar as saudades de meus amigos mundo afora. Assim fazendo, talvez eles fizessem a mesma coisa e daríamos mais tangibilidade ao convívio virtual. Ao sabor dos temas do dia, devo ter postado uma dúzia. 

Ora, ao ver-me na tela – filmado a um metro de distância com a lente focada no rosto bochechudo e na papada proeminente –, os alertas se tornaram quase histéricos. Só no último fim de semana, recebi nada menos do que três alarmes dando conta de meu fim iminente. Por trás de cada linha, uma insinuação de que sou um relapso, quando não um suicida potencial. Um deles descreveu com riqueza de detalhes as angústias de um edema; outro a sensação de afogamento de uma embolia dos pulmões e já conheço todo o roteiro de infartos fulminantes e AVCs paralisantes. A todos, meus sinceros agradecimentos.

O que farei de concreto? Nessa segunda-feira (12), estou muito ocupado com compromissos que não podem fugir da ditadura do calendário. Pretendo sim continuar gravando minhas pequenas mensagens, apesar de saber que elas mais amedrontam do que deleitam as pessoas. Mas antes mesmo do fim do mês, talvez lá pelo meu aniversário de 60 anos, no dia 29 de março, em plena Páscoa (bela data para morrer, não é?), vou fazer novo checkup para ver se o médico confirma as profecias que ando ouvindo. A depender do caso, talvez nem faça a comemoração que estava planejando. 

Seja como for, vou procurar me informar mais a fundo sobre os ritos da morte e talvez já deixe meu enterro pré-pago. Acho que a cremação pode ser uma opção prática e simpática, pois me dá a chance de ter as cinzas espalhadas em alguns lugares queridos. No fundo, talvez devesse temer a morte, mas não é este o caso. Se a temesse, não teria vivido tão bem. A incapacitação é sim uma coisa terrível, mas espero que não se arraste além do tempo devido e conto com os amigos para cortar o oxigênio. Seja como for, agradeço a todos os que têm se preocupado com esta alma errante e moribunda.

Enquanto ela não vem, acordo todo dia com disposição e durmo de maravilha. Como com apetite e adoro chegar em casa e abrir um bom livro. Vez por outra, faço farras em que bebo com entusiasmo e, besteira das besteiras, posso filar um cigarro ocasional de alguém à mesa. Não sei o que é medo, ciúme ou inveja. Aliás, jamais soube. Talvez seja isso o que tenha me poupado as coronárias até hoje. Nesse contexto, nunca fiz uma cirurgia, e o único aborrecimento foi uma asma leve que surgiu depois de velho. Adoro a vida, mas não a qualquer custo. Gosto de vivê-la à minha maneira e ao meu ritmo.   

Assim sendo, espero que os muitos profetas do Apocalipse estejam errados, mas não acredito que tanta gente possa estar equivocada ao mesmo tempo. Se algo acontecer, guardem suas lágrimas para quem for mais digno delas. Não sou um paradigma de racionalidade e, infelizmente, aprendi a curtir minhas imperfeições. Elas não me afligem. As pessoas que me são próximas têm reservas emocionais suficientes para superar a eventual perda. Pensando bem, eu não faria essa falta toda. Enquanto a visitante não vem, vou curtindo a vida, evitando as frituras, os carboidratos noturnos e a bebida barata. 

O resto é loteria. Adoro o elogio das mulheres, mas hoje fico indiferente aos apupos dos médicos. Sou assim, assim vim ao mundo e assim me irei. Só me desespera o destino que darão a meus livros, mas imagino que um primo atencioso os levará em seu devido tempo para a biblioteca de Garanhuns. O resto é detalhe. Hoje, segunda-feira, é dia de virado à paulista nos botecos da cidade: torresmo, ovo frito, bisteca de porco, farofa, arroz e, aqui vem o lado saudável, uma colher grande de couve desfiada. Saúde pura, portanto. Antes de dormir, tomo uma Sinvastatina. Se não acordar é porque estava escrito.  


leia também

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: