David e Golias

Em muitas horas na vida, ser subestimado é a maior das bençãos

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Quando criança, gostava de reconstituir partidas memoráveis no tabuleiro de xadrez. No fundo, desesperava-me não conseguir interpretar a contento o que fizera Capablanca rocar em um momento que me parecia prematuro do jogo. Em outras horas, tinha um lampejo de entusiasmo quando entendia o que estava por trás de um movimento de cavalo de Bobby Fisher ou de bispo de Boris Spassky. A mais marcante de todas essas dezenas de partidas que reproduzi na solidão de meu quarto, permanece indelével na memória. Não sei contra quem jogava, mas o vencedor foi Alenkhine. 

O que houve de mais fascinante em sua estratégia foi provocar o apetite desmedido do adversário que, julgando-o distraído, comeu as peças graúdas que ele lhe lançava como gordos pitéus. E, como quem come com os olhos, sem avaliar as consequências, a armadilha foi fatal ao incauto. Em dado momento, quando já tinha o raciocínio entorpecido pelo antegozo da vitória fácil, Alenkhine avançou um modesto peão e deu cheque-mate fulminante. 

Nesse contexto, importa muito saber guardar os trunfos, manter a unidade e refinar a força discreta e represada dos desfavorecidos. Todos nós tivemos em nossas vidas nossos momentos de superar grandes provações. Que coisa mais aterradora que um diagnóstico fatal à saída de um consultório médico? Que sensação pode ser mais inquietante do que saber que um inimigo interno arma um golpe fatal contra o corpo que o hospeda? Na vida corporativa, quem já não foi voto vencido por uma maioria acomodada, insensível ao tirocínio de uma ideia mais ousada? 

Reconheço que as agruras da vida levam muita gente a se render antecipadamente, como se o confronto já a desanimasse, e como se achasse de antemão que todo combate é vão. Mas há também aqueles para quem o paradigma de David contra Golias simplesmente energiza e motiva. Aqueles mesmos de cuja própria boca já ouvi dizer: "Agora as coisas estão no ponto, pois eu adoro uma encrenca e amo o bom combate". 

É para estes que mais torço. Dentro da melhor acepção inglesa, são os "underdogs". Muitas horas na vida, ser subestimado é a maior das bençãos. E o elogio se reduz a um lenitivo torpe para os fracos. Kadima!  



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