Os africanos de Israel

O país sabe arcar com sacrifícios na hora de dar sua cota para que o mundo seja um lugar menos desigual e cruel

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho fala dos africanos de Israel

No fundo, torço para que não aconteça a anunciada deportação de 35 mil africanos ilegais que vivem em Israel, que vêm inchando a periferia sul de Telaviv, e trazendo algum desassossego a um país que, embora assolado por temores de outra transcendência, não está disposto a mobilizar as forças da ordem para deter a criminalidade incipiente. A bem da verdade, reforço minha torcida baseado em três argumentos singelos que, em certa medida, se confundem com a narrativa do país e, como não, resvalam os fundamentos sobre os quais ele se assenta, no ano do septuagenário aniversário de sua criação. Senão, vejamos.

O primeiro deles é que, embora muitos desses sudaneses e eritreus não seja necessariamente formada por refugiados de qualquer sorte, certamente que os indivíduos enfrentariam um quadro de penúria, do momento que fossem remetidos de um país desenvolvido para um que, sob mais de um aspecto, pode parecer calcado em padrões do século 19, com discretíssimas manchas de progresso social. Daí se impor a questão humanitária. Ora, por que não transformar em legais os tais ilegais e contingenciar a importação de trabalhadores asiáticos em favor de quem já está lá? Uma nação de boas cabeças certamente poderá treiná-los à altura. 

O segundo ponto resvala um viés humanitário a que Israel – talvez mais do que qualquer outro país no mundo – não pode simplesmente fazer como os demais. Afinal, o Estado hebreu se forjou na esteira de refugiados de toda sorte, e boa parte da população traz no inconsciente as marcas da expulsão, do opróbrio e do degredo, quando não de experiências muito mais cruéis. Por legítimo que seja manter o equilíbrio de uma sociedade multiétnica, e não raro dilacerada por dilemas identitários internos, desejo que consiga mobilizar suas imensas forças vivas para promover uma política à base do "sempre cabe mais um". 

Por fim, eis uma chance de ouro para Israel de desmontar as poderosas narrativas que apontam-no como um enclave neoliberal, imantado de "ocidentalismo" e movido à indiferença vis-à-vis os perdedores do mundo. Num momento em que desanuviam as relações com o Egito e, por razões tortas, se estabelece uma política de consultas com a Arábia Saudita, a solidariedade para com os africanos sinalizaria que Israel é uma nação fraterna, empática, forjada no humanitarismo e que sabe arcar com sacrifícios na hora de dar sua cota para que o mundo seja um lugar menos desigual e cruel.

Os sobreviventes do Holocausto que se dispõem a abrir suas portas para abrigar em suas casas os africanos apontados como alvos de deportação, um dia poderão ter seus nomes gravados em algum monumento do Darfur como os novos justos entre as nações. 


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