Certa noite em Paris: no aeroporto – Final

O horário de decolagem prende-se a uma cadeia de eventos imensa, passível de desencadear efeitos dos mais nefastos

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

O horário de decolagem prende-se a uma cadeia de eventos imensa, passível de desencadear efeitos dos mais nefastos

Sobre morrer na praia, fala-se todo dia, pois é expressão consagrada na linguagem coloquial brasileira. Já morrer no aeroporto, é menos frequente. Mas, como bem sabemos, isso pode tomar muitas formas, e todas elas são igualmente devastadoras. Por que? Ora, quem está atrás do balcão da companhia aérea nem sempre é sensível à frustração estampada no rosto do passageiro que, já com a mente no destino, descobre que seus objetivos estão frustrados e que, muito provavelmente, não embarcará. Assim, por muito que ele diga que o trânsito estava paralisado ou que uma tempestade alagou as vias expressas, o funcionário está, na verdade, aconchegado pelo ambiente aeroportuário asséptico e, lá no fundo, atribuirá sempre um atraso à incúria ou à irresponsabilidade do passageiro. Contudo, mesmo admitindo que motivo de força maior explique uma apresentação tardia para o check-in, pouco ele pode fazer, se pensarmos bem. Isso porque o horário de decolagem de um avião com centenas de passageiros a bordo prende-se a uma cadeia de eventos imensa, passível de desencadear efeitos em cascata dos mais nefastos. Pois se um avião perde seu "slot" de decolagem e chega com muito atraso ao destino, isso retardará a partida de volta rumo ao ponto de origem. Daí que o balcão de check-in tem de obedecer a uma lógica implacável que vai muito além da empatia que possa estabelecer-se para com a decepção alheia. Assim sendo, quando gritei do meio do saguão que me esperassem, que eu era mais um passageiro para a Etiópia, tudo o que eu não queria era ver o que vi, ou seja, a expressão desolada e irônica do funcionário. 

"Lamento, Monsieur, mas este voo o senhor já perdeu", disse ele, taxativo. As reações a essa atitude granítica podem ser muitas. Em 45 anos muito ativos em aviação, já vi mulheres se desesperarem e chorarem profusamente. Outras vezes, vi homens se tomarem de soberba e, aos berros, clamar pela presença do supervisor. No meu caso, contudo, a experiência me dizia que ainda havia uma esperança, e que um pouco de boa vontade, apenas um pouco, poderia me valer o cartão de embarque. Mas nessas horas é determinante a natureza da pessoa com quem estamos tratando. Se porventura calhar de ser com um funcionário burocrático e excessivamente cerceado por peias externas e internas – estas comportamentais –, a esperança some. Mas, se o atraso não for colossal e se por ali trabalhar alguém com um olhar mais fino, renascem as esperanças. Ora, diante da negativa do rapaz de gravata, voltei-me para uma moça que tinha um walkie-talkie ao ouvido e que me pareceu ter poderes de ir além. "Vocês não podem imaginar o caos que reina no RER. Para chegar aqui, tive de atravessar subúrbios sombrios e, a bem da verdade, praticamente sequestrei amigavelmente um carro para chegar aqui. Não sou de atrasos, mas hoje foi excepcional. Aqui está meu cartão Gold, prometo que não vou sequer ao lounge e que, se merecer sua confiança, parto como uma flecha para a sala de embarque. Conto com sua misericórdia, na falta de melhor palavra". Pronto, ali jogara minha última cartada, já não tinha mais o que fazer. Ela me olhou com ares de uma mãe que vai tirar o filho do castigo. E o funcionário beócio esperava que ela arbitrasse meu destino, nitidamente torcendo para que me negasse um indulto. 

"O senhor tem bagagem, Monsieur Dourado?" O sangue pareceu me voltar à face. "Só esta mala", e já levantei-a em direção à balança que assinalou 21 quilos. "OK, vamos embarcá-lo, mas só queria prevenir que sua maratona não terminou. O embarque já foi iniciado pela porta A39. E o senhor ainda tem de passar pelo controle de passaporte e pela segurança. É preciso apressar-se". Aliviado, tentado a pular o balcão e beijar aquele rosto de princesa abissínia, fui patético ao rebater: "Você é um anjo, sem dúvida o que de melhor apareceu no meu caminho este ano. Muito obrigado. Não se preocupe que não atrasarei seu voo em sequer um minuto. Sou gordinho assim, mas também ótimo corredor, pois tenho passadas largas". O funcionário me deu o cartão de embarque, etiquetou a bagagem e reforcei meus agradecimentos: "A você também, muito obrigado". Constrangido com a própria consciência culposa, ele ainda disse, entre contrito e sincero: "A mim não há o que agradecer. Só a ela", e apontou com o queixo na direção da gerente de embarque. "Aos dois, então. Au revoir et merci". E desci rumo ao controle de passaporte que, para minha felicidade, estava quase desimpedido. A mesma sorte não tive na verificação da segurança. Como os passageiros do voo da El Al também estavam usando o mesmo terminal, o rigor da inspeção foi dobrado. E, quando chegou minha vez, eis que um agente furou a fila acompanhando um casal – sem dúvida de primeira classe em algum outro voo. Diante de minha reação, ele rebateu: "Desculpe senhor, é que ela está grávida", disse em tom muito pouco convincente enquanto carregava nada menos do que três enormes sacolas da Louis Vuitton.

Livre do controle, só me restava correr. Com a bagagem despachada, eu já sabia que o avião não partiria sem mim. Mesmo assim, refém de uma espécie de síndrome de agradecimento, eu não queria atrasar o embarque. Com a boca seca, pois a última vez que ingerira líquido fora há mais de quatro horas, desde a cerveja sorvida no Paul da estação de Estrasburgo, parei numa quiosque de revistas e peguei três garrafas de água Evian. Deixei 10 euros sobre o balcão e continuei a travessia até o A39, que parecia não chegar nunca. Era enorme a vontade de parar e ali mesmo tomar água. Minha vida podia estar dependendo de uns goles providenciais. Mas só me permitiria tamanho luxo quando chegasse ao portão, isso estava fora de dúvida. Enquanto ele não aparecia, resfolegante, eu não arrefecia o ritmo. Em dado momento, vi o sinal luminoso do painel. E, sem qualquer surpresa, me apercebi que apenas um quarto dos passageiros embarcara. Não havia sequer razão para tomar a fia preferencial a que meu cartão dava direito. Podia sim sentar por bons 10 minutos e, afinal, comemorar a batalha ganha com água leve, gelada e abundante. Para quem sonhara com flûtes de Champagne podia não parecer um bom negócio, mas para mim a sensação de vitória era inexcedível. O suor saía por todos os poros e, agora que estava sentado, me ardia nos olhos como água salgada que é. Nessa hora, vi à minha frente um senhor que me estendeu alguns guardanapos de papel. Espantosamente igual ao meu pai quando tinha uns 50 anos, identificou-se como Robert. Era libanês e vivia na Etiópia. "Você está bem suado". "Obrigado, amigo, aceito os lenços com prazer. Sente ai".

Então lhe contei rapidamente o que acontecera desde Estrasburgo. E lhe disse o quanto ele se parecia com meu pai. "Ele ainda é vivo?", perguntou. "Não, se foi já há 18 anos, mas é como se estivesse com ele estando a seu lado". Robert sorriu, abriu os braços e disse: "Que seja, então pode se considerar meu filho pelo tempo que quiser". Só então me dei conta de que tudo dera certo, estava terminado e que merecia ser contado. Quarenta minutos mais tarde, decolava para Adis-Abeda com o coração leve e um sorriso que persistiu por toda a noite e que só se dissipou quando vi o primeiro clarão do sol lá pelas bandas do deserto do Sudão. Tiraria um cochilo breve, estávamos perto da chegada, mas diante do que vivera, nada haveria de me arrancar uma queixa pelos próximos dias. E assim foi.       


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