Certa noite em Paris III: o sequestro

Com ar assustado, olhando de soslaio aquele homem grande e corpulento a pedir ajuda, só lhe restou acelerar um pouco

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris

O chinês olhou nos meus olhos em franco desespero. Em UTI, aquela expressão facial é conhecida como "apelo de dor". Mesmo o dia a dia na imensa Xangai, navegando entre mais de 30 milhões de almas, não o preparara para uma situação tão inusitada. A possibilidade de que perdesse o voo também passou a ser concreta e, como eu, ele sabia que só não podia perder a esperança. A sombria estação de Vert Galant estava que era uma desolação. Fiz sinal para que ele e a esposa me seguissem e desci à rua onde dezenas de passageiros se perfilavam à espera de um táxi às 20h25, na escura noite invernal. Em dado momento, um patrício deles falou alguma coisa em mandarim e eles se animaram. Parece que um Uber dera sinal de vida e chegaria ali dentro de mais 20 minutos. Apesar de ser uma espera quase ruinosa para seu voo, pelo menos lhe garantia abrigo do que mais temia: a insegurança que o assaltava naquele lugar remoto e sem alma, uma estação que em nada lembrava sequer vagamente que a reluzente Paris estava a apenas meia hora de carro dali. Quanto a mim, que defendo a tese de que estar só é quase sempre uma dádiva libertadora, me despedi ali mesmo do casal, e disparei rumo a um café precário que ficava a uns 400 metros à esquerda. À medida que me distanciava da estação, escasseavam os passageiros. Três deles, contudo, formavam uma pequena ilha e me chamaram a atenção. Também era gente que tinha pressa em chegar ao aeroporto, embora talvez não em desespero tão flagrante quanto o meu. Menos hesitantes do que os chineses e tampouco tão sobrecarregados de bagagem, quem sabe não poderíamos ir juntos, na eventualidade de eu conseguir uma condução.

Dentro de 16 minutos, pelos dígitos luminosos do celular, meu voo estaria tecnicamente fechado. Só de pensar no transtorno de perdê-lo, eu ficava mortificado. Perderia uma passagem não reembolsável e detesto arcar com prejuízos evitáveis. Afinal, a Ethiopian não se solidarizaria com a barbeiragem da SNCF e eu teria que comprar uma passagem nova ou, numa boa hipótese, queimar 50 mil milhas na Star Alliance no dia seguinte, para tentar chegar a São Paulo na manhã da segunda-feira, o que não era de todo um plano ruim, mas ainda assim era deveras frustrante. Que decepção! E eu que pensara em chegar ao Charles de Gaulle com boa antecedência, fazer o check-in com tranquilidade, ler os jornais no lounge e lá mesmo tomar um Champagne refrescante e merecido, depois de dez dias de uma viagem cheia de bons frutos, bem sucedida em cada detalhe. De mais, um detalhe me afligia. Sempre tive sonhos recorrentes de que perdia um avião. Neles, eu chegava a uma laje ornada de palmeiras farfalhantes e, à distancia, via quando um comissário puxava a porta do avião e dois homens arrastavam a escada. Então ele começava a taxiar e eu me torturava em angústia...e despertava. Era uma cena do antigo aeroporto do Recife, tal como o via na minha infância e embora o sonho não tenha evoluído para pesadelo ao longo dos anos, certo é que eu não parava de me inculpar. Por que não fora mais prudente? Por que não saíra mais cedo? Seria tamanho desleixo um sinal inequívoco de decrepitude? Falhar numa missão ao exterior sempre me pareceu inaceitável. Isso estava ancorado no imaginário adolescente, quando meus pais me honraram com a confiança de deixar que viajasse para fora aos 15 anos. Será que estava na iminência de deslizar e macular meu currículo de acertos?

Foi então que a situação ficou insustentável. Com a boca seca, um tanto ofegante, vi uma pequena van se aproximar. A baixa velocidade, o casal escutava música em alto volume e parecia se divertir com a visão inusitada de tanta gente à porta da estação àquela hora, gente esta que, nitidamente, não residia no bairro. Ele, ao volante, deveria ter 30 anos. Ela, toda sorrisos, talvez 25. Eram negros e pareciam estar vivendo instantes especialmente felizes. Ela se debruçava sobre ele, o braço esquerdo enlaçando-o pela nuca. Tudo apontava para uma noite de muito prazer a dois. Não seria eu que os impediria, mas de repente me ocorreu que eles podiam adiar os bons momentos para logo mais. Foi então que gritei à queima-roupa: "Monsieur, aidez-moi, s´ il vous plaît". Com ar assustado, olhando de soslaio aquele homem grande e corpulento a pedir ajuda, só lhe restou acelerar um pouco, obedecendo ao instinto natural de defesa, até que estacou diante do discreto semáforo vermelho que dava passagem para os pedestres. Nesse instante, tentei abrir a porta traseira do carro e ela cedeu, correndo pelo trilho. Era minha última chance e talvez elas fossem maiores se eu estivesse a bordo, apesar de não ter sido convidado. Então, disparei: "Escute aqui, amigo, gratifico bem se você me levar daqui até o terminal 2 do aeroporto em 15 minutos. Desculpe os maus modos, mas não tenho opção. Você vai ter que ir". Pensando em como aumentar a gorjeta, disse: "E pare ali onde estão aquelas três pessoas. Elas também vão para lá. Te daremos 80 euros, 20 cada, e você vai tomar um vinho com a simpática mademoiselle logo mais. Mas é ir ou ir, não estou lhe dando a escolha, entendeu?". Ele avançou hesitante e ela me olhava assustada.  

"Aqui", determinei que ele parasse. Então disse em inglês para as duas mulheres e o homem careca que nos olhavam com alguma perplexidade: "Esse jovem vai nos levar a Charles de Gaulle. A prioridade é minha, preciso estar no Terminal 2. Cada um de vocês dá 20 euros e se quiserem é subir ou largar". Escancarei a porta e, de repente, éramos quatro passageiros e o casal. Estávamos em maioria e não me desagradava a ideia de assumir o volante se o motorista esboçasse alguma reação negativa ou se não se mostrasse à altura da missão. À primeira frase do careca, vi que puxava nos erres como fazem os sabras quando falam hebraico. Logo era israelense. Uma das moças comia os efes e os pronunciava como pês. Na mosca, era da Indonésia. A segunda , também de traços orientais, soltou um "Oh, this is crazy", com sotaque francês. Seria da Polinésia? "Indeed, I am from Tahiti". O motorista, vendo que não tinha escolha, de súbito pareceu entender a situação. E eu soltei o verbo: "Vamos lá, acelere, mon pote. Mostre que você é o novo Alain Prost. Chegue lá em 15 minutos que você não vai se arrepender. Não fale com ele, Mademoiselle, não deixe que perca a concentração. Os bons pilotos precisam de foco, e corra para não perder o semáforo. Ufa, passamos, você é bom, cara". O israelense se divertia. Como não poderia ser diferente, disse: "Você daria um bom oficial do exército. O que você faz?". Para aturdimento completo dele, respondi: "Sheket, bevakashá, chaver. Ein lanu hazman ledaber achshav. Anachnu tsarihim lalechet lesede hateufá". Ele engoliu a surpresa e assentiu: "Lama lo? Beseder gamur". Só um sabra encaixa bem uma cortada indelicada, na linha do "fica quieto, sem tempo para papo, temos que chegar ao aeroporto, meu chapa". As moças observavam o silêncio dos reativos.

O relógio já marcava 20h46 quando senti om cheiro do querosene de avião e vimos, à distância, as luzes do Charles de Gaulle. Tecnicamente, meu voo estava perdido por um minuto, mas agora eu só estava a três minutos do terminal. "Vamos lá, se apresse, meu amigo, você é mil vezes melhor do que Prost, merece ter tanto dinheiro quanto ele. E ainda é muito mais bonito do que aquele baixinho narigudo. Já contei seu dinheiro aqui, são 80 euros, 20 de cada, não precisa agradecer, e ainda vou acrescentar mais 20, por minha conta, o que fará 100. São seus, mas não perca um só segundo. Chegando lá, não vou ter tempo de me despedir". Era 20h49 quando o carro parou. No guichê da Ethiopian só dois atendentes ultimavam a desativação do balcão. Todos os passageiros já tinham feito check-in e passado a imigração. Arremeti como um bólide em direção ao balcão. E antes que meu corpo chegasse lá, minha voz fez as vezes das pernas. Sem medo do patético, gritei: "S´il vous plaît, je suis Dourado, passager Star Aliance Gold pour Adis Abeda". Mas a expressão do jovem engravatado não dava margem a dúvida. E senti que todo meu esforço estava a um triz de resultar vão. Pensando bem, essa história merece um capítulo derradeiro que sairá amanhã. 


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