O Brasil ainda conseguirá participar da festa?

O excesso de liquidez mundial tem ajudado o país, nota Eduardo Cairoli

Por Eduardo Cairoli*

O excesso de liquidez mundial tem ajudado o Brasil, nota Eduardo Cairoli

Estamos vivendo um período de bonança no mundo, e o Brasil esteve ausente da festa. O mundo inteiro vem crescendo há quase uma década e nós, em vez de surfar a onda, tivemos de consertar a prancha. E agora, será que a onda segue? Acreditamos que em 2018 o mundo seguirá o movimento expansionista, mantendo o crescimento global acima dos 3%. As empresas devem continuar aumentando seus ganhos, assim como as bolsas – ainda que com retornos mais modestos e com maior volatilidade. A inflação global deve seguir em queda, o que manterá os juros em patamares baixos. E existe uma probabilidade menor de recessão. Todavia, devemos estar atentos a algumas ameaças, como o terrorismo crescente, os aumentos das ameaças de ataques cibernéticos e das tensões geopolíticas, o crescimento do populismo e a euforia com bitcoin e “cryptocurrency mania”. 

O atual ciclo econômico de crescimento mundial, a partir de 2009, é o segundo mais longo da história, somente atrás do iniciado no pós Segunda Guerra Mundial. Todavia, é importante salientar que a recuperação da economia, neste  período, foi lenta. Isso se explica principalmente pela origem da crise no sistema financeiro e da consequente elevada regulamentação imposta pelos órgãos regulatórios às instituições financeiras após o crash de 2008. Ainda há de se ressaltar que os resultados das empresas, em geral, foram os maiores já registrados, e devem seguir crescentes. O ciclo de alta das ações da bolsa norte-americana é o segundo mais longo e o terceiro mais forte dos últimos 70 anos. Em algum momento esse ciclo terminará – e é crucial estar atento aos indicadores e sinais para não sair nem muito cedo, nem muito tarde.

Em um cenário normal, um crescimento forte e longo como os nove anos deste ciclo expansionista, acarretaria, em algum momento, um processo inflacionário que teria de ser corrigido com uma alta de juros. Mas um fenômeno muito interessante ocorre com o ingresso da tecnologia nas tradicionais indústrias: a eliminação do intermediário nas transações.  O  processo acaba por baratear o custo dos produtos, sendo isso um dos principais responsáveis pela baixa inflação, com juro baixo e forte incremento global em um longo ciclo. E olhando para frente, não se percebe bolha no mercado ou algum risco aparente de final de ciclo nos próximos dois anos.

Obviamente, não existe um cenário com certeza absoluta, mas as ameaças para rompimento de ciclo são exógenas. Os riscos estão em algum evento causado pelas tensões geopolíticas e o terrorismo. Assim como um ataque cibernético que pode causar danos enormes à confiança, como, por exemplo, caso atinja algum sistema relevante de transações ou segurança. No que se refere ao bitcoin e às atuais cryptomoedas, sou muito cético e vejo um futuro claro. Não entendo como moedas, tampouco como unidade ou reserva de valor, o que não é aceito, cuja volatilidade destrói qualquer referência de unidade, e não possui lastro. O custo de transação é muito alto, o processo de troca é lento, e não é seguro. Em um futuro, esse fenômeno será estudado como a mais clássica bolha da história, e muitos se perguntarão “como eu não a vi?” – tal qual a bolha das Tulipas na Holanda em 1634-1637. Para ilustrar, no ano anterior ao pico, as bolhas do Nasdaq (2001) e Tulipas (1637), subiram respectivamente, 109% e 485%, enquanto que o Bitcoin e o Etherum tiveram alta de 2.292% e 10.722% nos 12 meses anteriores ao pico em 2017. A boa notícia é que enquanto o marketcap das ações de tecnologia representava 101% do PIB dos EUA e 31% do PIB mundial em 2000, todas as cryptomoedas juntas somam 3,2% do PIB dos EUA e 0,8% do PIB mundial. Ou seja, quando a bolha estourar, será digerida suavemente.

O ano que se encerrou foi importante, pois todas as grandes economias do mundo cresceram, incluindo Brasil e Rússia, que estavam em recessão. Apesar de o Brasil ter perdido, mais uma vez, um excelente ciclo, fruto de erros na condução da política macroeconômica, o caminho foi acertado, e assim têm entendido o mercado e os agentes econômicos. Os recursos estão sendo direcionados ao país, que vive um cenário de inflação abaixo da meta, juros de 6,75% ao ano, a retomada da economia com perspectiva de crescimento próximo a 3% em 2018. Mas a principal razão para o dinheiro estar entrando no Brasil é o excesso de liquidez mundial. Esse fator, junto com o tema de casa feito, é fundamental para atrair o capital estrangeiro. Esperamos que a “festa” dure um pouco mais, e assim o Brasil possa participar, apesar de ter chegado muito tarde.

*CEO da Privatto investimentos.


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