Certa noite em Paris II: no trem RER

Foi na estação, ainda com as portas do vagão abertas, que ficou evidente que algo ia muito errado com o sistema

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Plataforma de embarque do trem RER, na França

Verdade seja dita: na Gare du Nord, pode se esperar de tudo. De furtos a turistas atordoados, manchas de urina nas catracas e atos de vandalismo, até atentados terroristas. Não é por outra razão que ela é tão ostensivamente vigiada, o que, na aparência, parece mudar pouca coisa face ao caos do formigueiro humano que se vê. Pois mais do que um entroncamento logístico, a estação é uma intrincada encruzilhada de civilizações. Além do "melting pot" parisiense da Zona Norte, por ali passam diariamente centenas de nacionalidades rumo aos aeroportos da cidade, especialmente o de Charles De Gaulle, em Roissy. No anoitecer do sábado fatídico, a paisagem não estava diferente, mesmo porque os franceses também saíam para as férias de inverno e, creia-se ou não, o entardecer assinalava o fim do ciclo de celebrações do Ano Novo chinês, um evento de monta em qualquer lugar do mundo, dado o tráfego de orientais pelas artérias ferroviárias, aeroviárias, rodoviárias e náuticas do planeta. Assim, tendo chegado à plataforma do RER, não vi nos painéis os pontinhos luminosos correspondentes às paradas do aeroporto. Perguntei a uma atendente da SNCF o que se passava. Ela instruiu-me a subir no trem que se preparava para partir. E foi taxativa na cantilena, em bom sotaque da África Ocidental: "Pegue esse vagão e vá até Mitri-Claye, Monsieur. Lá chegando, haverá um ônibus que levará os passageiros para o aeroporto. Não há com o que se preocupar". Achando que tinha tempo de sobra e pouco a perder, embarquei. O relógio então marcava 18h50.  

Partimos. Antes da primeira parada em La Plaine-Stade de France, templo do futebol francês e local onde os gauleses nos derrotaram na última Copa que jogaram em casa, um chinês simpático demonstrava ansiedade. Estava no trem certo? Estávamos na boa direção? As perguntas, na verdade, eram dirigidas a um casal francês, pais de um par de gêmeos buliçosos, que, não sendo viajantes, contentavam-se em dar respostas genéricas. Mais solidário ao drama de nosso amigo, por ser parte implicada, me intrometi na conversa e reproduzi o que ouvira. "É que em Xangai se comenta que a região do aeroporto parisiense pode ser perigosa". "Só à noite", disse o francês, à guisa de consolo, o que não aliviou em nada as apreensões de chinês mesmo porque já escurecera. Sentindo-se mais à vontade comigo, aduziu: "Na Itália, uma van desapareceu com todas as bagagens de um grupo de amigos". Ri da situação e assim chegamos a La Courneuve-Aubervilliers. Por um momento, recitei para mim mesmo os versos de Prévert sobre o bairro e, para relaxá-lo, quando paramos em Le Bourget, disse que ali se realizava a prestigiosa feira de aviões. Sobre Drancy, estação seguinte, e sua sinistra reputação de antessala de Auschwitz, nada disse. Em Le Blanc-Mesnil, os gêmeos demonstravam impaciência e eu mais ainda. Por que as paradas eram tão demoradas? De qualquer sorte, eu tinha tempo. Por fim, chegamos a Aulnay-sous-Bois, palco dos incêndios de carros anos atrás, e bairro dito sensível na acepção de qualquer parisiense. Normalmente, o ramal do aeroporto de lá segue para a esquerda. Mas naquele dia, íamos para a direita.

Foi na estação, ainda com as portas do vagão abertas, que ficou evidente que algo ia muito errado com o sistema. Depois de longa espera, monitores imberbes e estranhamente sorridentes, todos com colete da SNCF, disseram que ali era o fim da linha e que a composição seguiria para a garagem para manutenção. Que deveríamos esperar a próxima que nos levaria à tal estação de baldeação terminal. A essa altura, até a família de franceses, que sequer ia viajar, ficou aturdida. Quanto ao chinês e a esposa, nem se fala. Já os rapazes e moças da SNCF, era visível que se divertiam. Teriam histórias para contar aos amigos mais tarde, quando embolsassem a gratificação da contratante. E diriam: não é que tem gente que entra em desespero por tão pouco? Ora, o que é perder um voo para Tóquio, Cidade do Cabo ou São Paulo? Que espécie de empatia pode ter um pós-adolescente recrutado de última hora por rede social, numa fase da vida para quem tudo se reduz a festa? Às 19h15 apareceu o que seria nosso trem. Ao cabo de um intervalo excruciante até sair, partimos para Sevran-Livry a passo desanimado. Mais parecia que o trem estava cansado, exangue. Nas plataformas, sempre uma brigada despreparada e evasiva, paternal e desinformada. Dez minutos depois, a meio caminho dali para Vert-Galant, paramos no meio do nada. Pelo alto-falante, fomos informados de que tínhamos pane mecânica. Então, durante 45 minutos intermináveis, funcionários passeavam pelos trilhos com lanternas. E então a iluminação interna foi apagada.

Nesse longo intervalo, uns poucos tentaram forçar a porta e descer. Um aviso sonoro informou-os que aquilo era considerado crime grave e que logo mais partiríamos. Que tivéssemos paciência porque as baterias estavam sendo recarregadas. Um argelino gritou: "É nisso que dá rodar trens de 30 anos". Mas certo mesmo é que a maioria dos passageiros se manteve quieta. Entretida com seus celulares, formava uma manada inverossímil já que excepcionalmente paciente, quase hipnotizada. Grande Steve. Lobotomizou a humanidade. Em outros tempos e a temperatura teria subido muitos graus. Inconformado com tanta desdita, o chinês desabafou: "Em meu país, o diretor já teria renunciado. Ou pior". Uma senhora bem trajada se lamentou: "Menos mal que fiz um seguro contra esses imprevistos. Vou dormir num hotel parisiense, se conseguir um trem de volta, e me resignar a não ver Londres hoje, como queria". Quando afinal o trem se mexeu, já passava das 20 horas. A três estações do terminal e penhorado a um trajeto de ônibus que, em tese, duraria 20 minutos, eu só tinha escassa meia-hora para chegar ao Terminal 2 do aeroporto e fazer um check-in de última hora. Não precisava ser um gênio em logística e probabilidades para entender que aquela batalha estava perdida. Na plataforma, o caos era digno de uma cena de evacuação de guerra. Um terço queria sair para a rua. Mas ora, as catracas de saída estavam bloqueadas. Outro terço, perplexo, mantinha um pé dentro e outro fora do trem. Os demais conversavam. O que fazer? Eu precisava estar em São Paulo na manhã de segunda-feira. Ademais, tinha uma passagem não reembolsável. Como proceder? Como salvar minha pele, sem deixar o casal chinês desamparado? Precisava agir, manter a dignidade, e não desistir. O realismo me levaria ao cadafalso.  

Ufa, só de pensar, sinto a adrenalina a me percorrer todos os vasos do corpo. Mas agora já terminou o espaço jornalístico. Amanhã, entrego o que falta. Desde já digo: o que viveria nos minutos a seguir, foi inédito em quase 60 anos de vida e em mais de quatro décadas de andanças. Até lá.


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