Certa noite em Paris: no TGV

Eu tinha reserva para o vagão 15 a preço reduzido. Ora, não havia vagão 15

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

TGV, trem rápido francês

Quando abri as cortinas na manhã do último sábado (17), em Estrasburgo, França, vi que nevava leve sobre os telhados do bairro de Neudorf, a 20 minutos de caminhada da famosa catedral da cidade alsaciana. Dei uma olhada no noticiário, preparei um chá e contemplando a pequena biblioteca, me resignei ao destino: desde outubro abrira mão daquele oásis de paz e reflexão de inverno para entrar numa batalha feroz, como são as travadas em São Paulo. Fizera bem? Ora, não era hora para matutar a respeito. Outros invernos virão e Estrasburgo não vai se evaporar. Então, arrumei os livros na mala e fui registrar uns apontamentos à minha mesinha de trabalho, na sala de boas lembranças. Às 14h30, fechei o apartamento e caminhei até a parada de bonde Landsberg, onde embarquei na direção Poteries. Depois de 15 minutos de viagem, tendo cruzado o centro da cidade, saltei na Estação Central. A neve persistia, mas não se fixava no chão. Como meu trem para Paris Est era o TGV 9592, que só partiria às 16h17, passei na padaria Paul, no saguão, e ali comi um sanduíche de salame com pepino. No balcão ao lado, comprei uma cerveja e rumei para a plataforma 2 quando esta foi anunciada. Era uma pena, mas precisava estar em São Paulo, impreterivelmente, na manhã desta segunda-feira (19). E Estrasburgo logo seria uma doce lembrança. 

Quando o trem estacionou na plataforma, logo vi que acontecera alguma coisa. Eu tinha reserva para o vagão 15, cadeira 47, a preço reduzido de 79 euros. Ora, não havia vagão 15. Éramos dezenas de passageiros com a mesma pergunta e os funcionários da SNCF nada sabiam informar. Até que um aviso sonoro esclareceu o ocorrido. A composição original, que vinha de Stuttgart, ficara retida na Alemanha em função da neve. Isso dito, os números digitais das laterais foram ajustados e embarcamos sem problemas, apenas com leve atraso. A paisagem permaneceu branquinha por metade do trajeto, ou seja, 45 minutos, e logo readquiriu as cores normais pelo restante. Em dado momento, o trem atingiu 345 quilômetros por hora e alguns jovens filmavam a paisagem fugidia e vertiginosa. Na intersecção de dois vagões, o controlador flagrou um viajante irregular. Este, algo embriagado, argumentou com empáfia. E 10 minutos antes de nossa chegada à estação Est, com a visão crepuscular do Sacré-Coeur à direita, bateu com a cabeça na porta do banheiro a ponto de sangrar. Buscava um álibi. Pois, ao ser interpelado pela polícia que o esperava, pretendia alegar que fora agredido. Vendo a farsa, pensei em me prontificar a testemunhar em favor do controlador, mas era melhor deixar aquilo de lado. Eu tinha algum tempo, mas eles se virariam bem sem mim.   

Chegando à Gare de l´Est, por volta das 18h15, desci as escadarias e peguei o metrô para a Porta de Clignancourt. Era uma curta viagem de uma estação até a Gare du Nord, de onde seguiria para o aeroporto Charles de Gaulle com o trem de subúrbio, também chamado de RER. Não saberia dizer desde quando faço esses itinerários, mas não seria exagero dizer que já se vão mais de 40 anos. Como meio parisiense que sou, sequer verifico no mapa do metrô para onde estou indo, tamanha é a familiaridade que tenho com o traçado da cidade por baixo da terra. Na Gare du Nord, às 18h30, entre centenas de magrebinos e africanos, é bem verdade que custei a achar uma catraca larga o bastante que me permitisse passar com a mala e a sacola de mão. A que havia, estava congestionada por uma caravana de carrinhos de bebê, já que os pais não sabiam como operar o sistema. Emulando o comportamento típico dos locais nessas horas, usei uma catraca normal e um pouco de força bruta quando ela quis fechar a portinhola de vidro sobre minha mala vermelha, que acomodava nada menos do que 25 livros recém-lançados, muitos sobre Emmanuel Macron. Esta, aliás, é a única muamba que consagro e foi assim que cheguei à plataforma do RER, onde devo admitir que parecia reinar desencontros e mal-entendidos. Mas e daí?

O relógio marcava 18h37. Ou 15h37 em São Paulo no agonizante horário de verão. O que quer que estivesse acontecendo, eu tinha tempo para gerir. Pois era só às 21:h45 que decolava o voo ET 745, de Paris-Charles de Gaulle para o aeroporto de Adis-Abeba, na Etiópia, África Oriental. Mal sabia eu que não teria tempo fácil nas horas que se seguiriam. E que muito de minha ciência de viajar – se é que tenho alguma – seria testada nesse intervalo. Mas isso eu só poderei contar amanhã. 


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