Dinheiro, poder e glamour

A origem dos conflitos estavam encobertas por camadas de ressentimentos que começaram a se amontoar na infância da vida

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho fala sobre dinheiro, poder e glamour

Os jornais desta quinta-feira estampam o conflito que estaria grassando no âmbito de uma notória família de empresários dos ramos têxtil, siderúrgico e financeiro. Quando as farpas eclodem na imprensa, é sinal de que a briga intestina já vem de longe e que estão praticamente esgotados os recursos de mediação entre os herdeiros. No caso em tela, há de se deplorar que a gênese da empresa se assentava na parceria de velhos judeus devotados ao trabalho, que tiveram que abrir o caminho à custa de muito esforço, para que, apenas meio século mais tarde, o cenário prenuncie um longo litígio, desses que drenam as melhores energias dos envolvidos, e que se arrastarão até que ninguém mais tenha sequer condições de usufruir do dinheiro em questão. O mais irônico é que uma centésima parte dos valores reivindicados por cada um deles, daria para que seus bisavós vivessem como nababos em suas cidades de origem, nos confins gelados do Leste da Europa. Mas a irracionalidade prevalece e assim é a vida. Sem esses capítulos, não haveria literatura, se é que isso consola.   

Nessa toada, embora semelhantes dilemas nunca tenham me atingido diretamente, pois muitas vezes não ter fortuna financeira é uma imensa dádiva, certo é que já vivi episódios deploráveis à minha volta, tanto no plano pessoal quanto no profissional. No primeiro âmbito, vi amigos desperdiçarem milhares de horas com advogados, a estudar estratégias que pudessem antecipar – ou protelar – um desfecho, de forma a exaurir as energias do oponente. Na outra trincheira, se perfilava alguém com quem, muitas vezes, tinha passado a infância lado a lado. Ou mesmo em consultórios de psicanalistas, agora às voltas com as intricadas equações de sentimentos que os levavam, alternadamente, a amar o oponente a ponto de se enternecer, e a odiá-lo de forma tão iracunda que até médicos experientes se apavoravam diante dos cenários cogitados. A pendularidade ia de um planejado abraço de aniversário e de uma palavra amiga ao telefone, ao detalhamento de uma chacina de que ninguém se safaria vivo do banho de sangue. Tudo por dinheiro, como reza o mais longevo quadro do popular apresentador Silvio Santos. 

Mas já vi também casos em que sequer a força redentora do dinheiro foi capaz de sobrepujar as equações de poder subjacentes ao drama. Muitas vezes as origens dos conflitos estavam encobertas por camadas de ressentimentos que começaram a se amontoar na infância da vida pessoal ou da empresa. "Não posso esquecer nunca que foi esse filho da mãe que me deu uma entrada desleal no jogo de futebol. Ele era maior do que eu e quase quebrou meu pé. Senti ódio naquela hora e disse a mim mesmo que um dia me vingaria. Pois bem, a hora chegou. Perderemos dinheiro, quanto mais melhor, mas a cadeira que já foi dele, hoje é minha e ele não a reverá jamais". Tragédia mesmo é quando dois membros da mesma empresa, ou família, se apaixonam perdidamente pela mesma mulher. Sei de um banco de investimento carioca que quase quebrou por conta das demonstrações de força e poder que cada contendor queria dar à nova Dulcineia. Não havia regra de governança que prevalecesse na hora de encantar a musa. Humilhar e ironizar o adversário nas reuniões era o combustível que movia ambos os diretores.   

Para que o triângulo das glórias efêmeras fique completo, temos um terceiro grupo para quem o glamour é tudo que se pode almejar. Dia desses, a propósito de um plano de previdência privada, falavam do antológico Jorginho Guinle que, tendo feito a chamada conta de chegada, concluiu que morreria aos 80 anos. Planejou os dispêndios generosos para a data, mas eis que a morte se fez preguiçosa...como ele. E só chegou com oito anos de atraso. Assim, foi morar no hotel que sua família fundara, o Copacabana Palace, onde não precisava pagar as contas, uma deferência dos novos acionistas ao playboy antológico. Faleceu com um milk shake de baunilha na mão, seu regalo de meninice. Para estes, nenhum dinheiro ou poder se equipara às delícias do bem viver, ao hedonismo desenfreado. Pensando bem, das três categorias, esta talvez seja a mais inofensiva, ainda que a mais sancionada socialmente, já que se toca uma vida destituída de propósito ou de missão. Mais conciliadores do que os parentes ricos ou poderosos, sua visão se esgota no estritamente necessário para honrar o cartão de crédito e os fretamentos aéreos.   

Por fim, dentro desse ecossistema, há lugar, bem entendido, para uma constelação de agregados, parasitas, satélites e apaniguados que, como os eunucos de outras cortes, servem de leva e traz para os que detêm dinheiro, poder ou glamour. No mais das vezes, como peixes-rêmora, se contentam com as sobras do predador e sabem ser coadjuvantes como poucos, sem ousar disputar o protagonismo. Manda a boa norma que se contentem com o casamento harmônico de dois desses ingredientes, dificilmente com um só isoladamente, salvo em meios de foco único: as grandes finanças, para o dinheiro. Um fulgurante cenário político, para os que se extasiam com o poder. E o virtuosismo de artistas e atletas cuja força e fortuna derivam da arte. Seja como for, Mahmud Darwich tinha razão quando disse: "O homem só possui um reino de poeira e uma coroa". Para os que se deixam siderar com essas pompas, fico com a deliciosa "boutade" de um Irmão Max ao receber um prêmio cobiçado: "Para ser bem sincero, trocaria essa estatueta por uma ereção".

A cada um, sua verdade.  


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