Gabor de Zagon, a voz a Toscana

O primeiro ponto que destacou é que a Itália como país é uma abstração

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Gabor de Zagon, Cônsul Geral da Itália no Recife

No último sábado, tivemos uma fértil rodada de debates sobre relações interculturais no Recife. Sob os auspícios do professor Gustavo Delgado, dediquei a primeira parte a dar uma panorâmica geral sobre o imenso caleidoscópio de culturas mundo afora. Mais adiante, o brilhante professor Jorge Zaverucha, do alto de todas as credencias acadêmicas que o habilitam à discussão de ideias, discorreu sobre Israel e o lado cultural das tensões que grassam dentro e fora de seu diminuto território. Na parte da tarde, em preleção magistral, tivemos o jovem Cônsul da Itália no Recife que, em português escorreito e de forma didática, falou sobre as vigas mestras sobre as quais se assenta seu país. Numa tentativa de reproduzir os conteúdos singelos, e sabe Deus quão verdadeiros, destaco-os aqui como forma de homenagear o diplomata generoso e amante de nossa gente. Nesse contexto, o Cônsul Gabor de Zanon (foto) falou com recuo e isenção relativa de sua própria cultura de origem, o que nem sempre é fácil para a maioria das pessoas, e muito menos para aquelas que estão investidas de uma missão oficial. Mas, já às primeiras palavras, percebemos todos que ele tinha uma visão holística das relações entre os povos e talvez esta tenha sido a marca da singularidade de sua palestra.

O primeiro ponto que destacou, e que sem dúvida deve ter surpreendido a maioria da audiência, é que a Itália como país é uma abstração. Caudatária de uma unificação relativamente recente para os padrões de sua própria História, é muito mais acertado dizer que, cognitivamente, o portador de um passaporte italiano se confessa, antes de qualquer gentílico, como toscano, lombardo, piemontês, calabrês ou siciliano, dentre tantas outras afiliações. E, mais do que isso, como florentino, romano, milanês, veneziano, bolonhês ou napolitano. As razões derivam de que a cidade e a província são âncoras identitárias muito mais poderosas do que a nacional. E, pasmem, não raro os bairros das cidades prevalecem sobre estas. Unidade nacional mesmo, talvez só na Copa do Mundo, e olhe lá. Ouvindo-o, recapitulei recente visita à cidade de Trieste, a pouca distância da fronteira eslovena. Ouvindo o dialeto local, tinha a impressão de que era tudo, menos italiano. São as mesmas sensações deliciosas de diversidade que nos acometem nos contrafortes de Bolzano, no norte montanhoso, ou nas ruas sinuosas de Palermo, no extremo sul siciliano. Como é sabido, gente da mesma província não entenderá o dialeto de uma cidade que diste 30 quilômetros uma da outra.

Mas o Cônsul Gabor de Zagon, ele próprio um privilegiado florentino que cresceu entre as fortificações de uma cidade monumento, não se exime de apontar para si o cômico papel de protagonista da crônica recifense. Contou ele que quando foi escolher um apartamento na capital pernambucana, o corretor disse: "Temos um novinho em folha, recém-construído. Mas também outro que é antigo, mas que tem suas vantagens". Curioso, perguntou: "Antigo de quando?". O agente imobiliário não titubeou: "É de 2011, mas vamos vê-lo". Ora, Gabor passara a vida em mansardas do século XV. Como podia aceitar esse conceito de antigo? "Na Itália, vivemos no passado. Temos indústrias de altíssima performance no norte, é certo. Mas nossos referenciais de beleza, de estética e história nos encapsulam numa espécie de grande museu a céu aberto. Ademais, não somos um país de grandes cidades". Ato contínuo, falou do bom gosto que permeia a moda italiana, referência mundial. Onde mais, um cidadão de meia-idade ousaria sair à rua envergando uma calça amarela, um blazer lilás com uma camisa verde, e sapatos de verniz, como se tal indumentária fosse a coisa mais natural do mundo? "Nada é por acaso. Toda extravagância deriva de uma raiz conceitual estudada", complementa. 

Preciso concluir. O bom gosto não prescinde de concisão e economia, e o texto já se faz longo. Mas foram interessantes as pinceladas que Gabor deu sobre as variantes culinárias e sobre a pregação enfática de que não se asperge, ou rala, queijo parmesão sobre pratos de frutos do mar. Essa é a cláusula pétrea do pacto peninsular. À mesa de negócios, portanto, há de se ter respeito à sequência dos pratos e não se recomenda misturar carboidratos com proteínas, muito menos com farináceos. Sim, admitiu que as conversas na Itália são verbosas e teatrais, o que não quer dizer que seus conterrâneos sejam dados à bufoneria. "Não, temos italianos muito sóbrios". No lado conservador, destacou o valor que se dá à tradição de seriedade das partes, das famílias, e de como tudo isso se refletirá na observância do indivíduo a certas normas de conduta que, finos observadores, os italianos logo identificarão. Por fim, contemplou-nos com uma explicação convincente sobre o mito da resiliência do país. Ano após ano, a imprensa afirma que as empresas estão à beira da falência e que são passíveis de quebra iminente. E, no entanto, ano após o ano, os cafés vivem cheios, as empresas prosperam e se internacionalizam e vão atravessando os anos. 

"É que temos certa resistência ao controle do Estado, uma certa tradição anárquica, que solidariza as pessoas diante do poder devassador do fisco. Assim, as empresas estão sempre em melhor forma do que declaram e as famílias sempre guardam um dinheirinho para os momentos difíceis", finalizou com um sorriso que disse tudo. Espero revê-lo em breve, Gabor. Nas entrelinhas de suas colocações, ficou claro o quanto você é o cara certo no lugar certo. Pois ademais de gentil e generoso, o Cônsul gosta do Brasil e da gente nordestina que muito o impressiona: "Não se pode esquecer que a vida é bela e que temos que nos apropriar das ruas", arrematou com sua alma florentina. Até breve e obrigado.


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