Ele se chamava Bocuse

Eis o maior ícone da gastronomia francesa desde Carême

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Paul Bocuse, renomado chef francês

Muita gente se pergunta se faz sentido gastar até R$ 1 mil por cabeça – ou mais, a depender dos vinhos e destilados – para frequentar um desses restaurantes 3 estrelas do Guia Michelin. E, o que é mais grave, dizem, para, na maioria das vezes, de lá sair com fome, dadas as porções diminutas que são servidas. Ora, no momento mesmo em que o mundo reverencia o legado de Paul Bocuse (foto), falecido no último sábado, vale alinhar algumas reflexões a respeito enquanto o tema palpita nas redes sociais. 

Assim sendo, começo respondendo à pergunta que eu mesmo formulei. Pois bem, se uma despesa dessa não for fonte de enforcamento no cartão de crédito e se a aventura só lhe daria certa dor de consciência, meu conselho é cristalino: vá conferir. Ao deixar o recinto, você quase sempre estará um pouco mais pobre. Mas como nem tudo na vida é dinheiro, você também se sentirá mais rico. É isso o que procurarei demonstrar. Mesmo porque, para comer bem, você não precisa ir a um lugar assim. Mas se for, à comida vão se somar outros ingredientes a ser apreciados.

Tudo começa com a reserva. É praticamente impossível chegar a um lugar desses sem garantir uma mesa antecipadamente, e não se espante se tiver que pagar no ato uma taxa não reembolsável nada amistosa, o que tornaria a desistência particularmente sofrida. Para fazer as honras da ocasião especial, vá bem vestido e dê o bom exemplo a quem estiver a seu lado para que ela (ou ele) também capriche. E, por favor, chegue no horário. Você será o primeiro a se beneficiar da pontualidade. 

Uma vez instalado, recomendo um Champagne gelado e é bastante provável que você queira percorrer alguns dos clássicos da casa. Estes podem ser uma boa "bisque" de lagosta, uma perdiz recheada, faisão assado ou um peixe de excepcional frescor. Certamente haverá um menu de degustação à altura de suas expectativas. Quanto ao vinho, não vá economizar numa hora dessas. Mas também não descuide da coluna da direita da carta porque, por acidente, você pode comprometer o salário do mês.

Enquanto o serviço impecável – por vezes um pouco afetado, mas cabe a você descontrair e dar o tom em que se sente mais confortável – traz prato após prato, veja a alvura da toalha, o brilho dos candelabros, o design das poltronas, a raridade da louça e o quão imaculadamente limpos são os copos de cristal. Se for ao banheiro, não se espante que lá tenha uma pessoa destacada para abrir as torneiras, temperar a água e lhe abrir um pano felpudo e absorvente que chupará cada gotícula que tenha sobrado entre os dedos. 

No final, não dispense a sobremesa. Mas tampouco pule o carrinho de queijos porque eles são uma glória da civilização. Chegando ao Cognac, depois de pelo menos  três  horas no centro de um quadro todo feito para que a experiência tenha ido além do prazer gustativo, você verá pela reação de sua companhia que todo aquele ritual integrou um circo de enorme poder de sensualização. Como você não estará especialmente pesado, é possível que a noite não termine com a chegada ao hotel. Mas se você quiser fumar um charuto e dormir, tampouco é um problema. 

Pois, no dia seguinte, logo ao despertar, você verá que as emoções da véspera ainda não se dispersaram na atmosfera e que vocês talvez queiram começar o dia triunfalmente, o que quer que isso signifique. Anos depois, as recordações da experiência estarão muito vivas e podem associar-se aos melhores momentos da vida de um casal. Então você concluirá que foi dinheiro muito bem aplicado. E ficará grato àquele amigo que insistiu na recomendação para que fizesse o sacrifício 

Antes que esqueça, vale dizer que essa experiência multissensorial tem alguns pais. Mas o avô pode ser Bocuse, talvez o maior ícone da gastronomia francesa desde Carême. "Adieu, grand Paul".


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