Ministério da Solidão

Por razões que a cada ano ficam mais óbvias, estou me interessando pela velhice aceleradamente

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho fala sobre velhice e solidão

Gosto da excentricidade. Em minhas idas à Inglaterra, país onde os excêntricos formam uma legião, creio ter conhecido alguns. Muitas vezes, eram realmente dignos do título. Assim, almocei com britânicos que comiam morangos com pimenta do reino; que adoravam banhos de mar em Eastbourne, em pleno fevereiro, e um que era aplicado estudante de estoniano. Um amigo me contou de um cidadão que caminhava dando passos para trás e de um professor que mandara confeccionar gravatas com estampas de orquídeas, do tanto que amava essas flores. A natureza ilhéu extrapola a dimensão do isolamento geográfico e, certamente, facilita a eclosão de singularidades em comportamento, penso eu. 

Se essa tese faz sentido ou não, certo mesmo é que chamou a atenção a nomeação de um Ministro da Solidão – "Minister for Lonileness" – por Thersa May, com o objetivo de romper o isolamento a que estão relegados 10% dos britânicos, especialmente os idosos. Embora seja cedo para saber exatamente quais as atribuições, não é difícil imaginar que a pasta se volta para a promoção de atividades recreativas e de inserção social, que lhes tornem a vida mais gregária e feliz. Custa-me entender que outros ministérios não poderiam promover essa política, num país de serviço público exemplar. Até por isso, a designação exclusiva me parece um pouco fora de propósito. Mas não há dúvida que é por uma boa causa. 

Por razões que a cada ano ficam mais óbvias, estou me interessando pela velhice aceleradamente. E, por seu segundo subproduto mais evidente que é a solidão compulsória, só perdendo para a doença. Nesse contexto, soube que é prática vigente na Escandinávia que os vizinhos idosos se telefonem diariamente para verificações e eventuais pedidos de socorro. Seja como for, em conversa familiar, alguém falou uma coisa tão verdadeira quanto inquietante: se o idoso não quiser passar seus dias a olhar as paredes, um livro ou a televisão, logo se ele quiser ser companhia grata e receber convites, se impõe evitar ser ranzinza. Um velho tem de ser grato e sorridente, amável e cooperativo. 

Sei não. Mas às vezes entendo porque muita gente prefere uma boa morte.  


leia também

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: