Trabalhe com Rachmaninoff

Doravante, e por um bom tempo, será minha trilha sonora de abertura dos trabalhos

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Sergueï Rachmaninoff

A primeira coisa que faço quando chego ao escritório, é ouvir música clássica à medida que dou uma folheada nos jornais. Homem de baixa espiritualidade, eis um momento em que parece acontecer uma ligação com o sublime. Quando criança, chorava, sentia verdadeiros arrepios no couro cabeludo, como se a cabeça fosse explodir. Como conhecia muitas peças de cor, trancava-me no quarto, postava-me diante do espelho e, munido de uma régua, regia uma orquestra sinfônica imaginária, compenetrado, tentando emular os gestos de Von Karajan, cuja viúva viria a conhecer em Berlim. Nunca contara a ninguém sobre o patético da performance solitária até saber que estudantes de regência fazem o mesmo nos bastidores das salas de espetáculo do mundo. Em suma, os grandes compositores russos, austríacos e alemães eram a apoteose. 

À mesa de almoço, papai tinha seus preferidos. Para relaxar, apreciar a comida e evitar conversas estéreis sobre as banalidades do lar, tema que abominava, ele ia até seu equipamento e lá colocava um long-play da Deutsche Grammaphon. Estava dado o sinal para que um silêncio providencial se instaurasse e, até para pedir os pratos, os apontávamos para mamãe que nos servia. O grave era quando ele cismava com uma obra especialmente arrebatadora. Foi o caso de Sergueï Rachmaninoff e seu maravilhoso concerto nº 2 para piano e orquestra. Pobres visitas. Iam lá para um dedo de prosa e boa gastronomia e terminavam tendo de apreciar uma música para a qual não tinham o ouvido bem treinado. À menor tentativa de falar de trivialidades, mamãe arqueava as sobrancelhas em alerta e papai ciciava: "psiu, silêncio". No final, todos se resignavam e até gostavam. "Bom gosto é bom vício", ele dizia.    

Um dia, anos mais tarde, estando na Suíça, fui a Weggis assistir ao treinamento da seleção brasileira, que lá estava concentrada, antes da Copa na Alemanha. Peguei o trem em Zurique, fiz uma pequena travessia no lago de Luzern e cheguei lá. Fui então visitar a Villa Senar, a casa onde Sergueï Rachmaninoff vivera entre 1932 e 1939. Papai tinha falecido poucos anos antes e as saudades ainda estavam em brasa. Fiquei mais de uma hora vendo o imóvel sólido e sem vida. Desde então, nunca mais pensei no episódio. Até que, chegando à minha mesa hoje, um amigo contou-me que conhecera um russo que vivia na Califórnia que foi grande amigo do compositor. Então, achei o concerto favorito de papai e as lágrimas desceram sobre o teclado de meu surrado computador. Decidi que farei como ele. Doravante, e por um bom tempo, será minha trilha sonora de abertura dos trabalhos.

Tente o mesmo você também. "Bom gosto é bom vício".


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