Desafetos em rede

Já não sei quando foi o post que mais celeuma causou

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Discussão no Facebook

Percebi dia desses um interessante paradoxo. Às vésperas de completar dois anos com meu perfil rodando no Facebook, constato que ocorre uma perda acelerada de amigos – não, não vou usar aspas por enquanto – sempre que uma postagem toca um tema nevrálgico, desses que catalizam a opinião pública no momento. Assim sendo, naquela enxurrada de comentários que deságua na tela, entre os bem fundamentados e aqueles nitidamente oportunistas, percebemos que alguém lavrou uma posição e, de imediato, talvez para não prolongar a agonia de ver estampado o que não lhe agrada, acaba de eliminá-lo da lista de amigos. 

Mais doloroso do que subir e descer na gangorra das amizades que se formam e desformam, sendo a imensa maioria delas puramente virtuais (o que não impede que nos afeiçoemos à imagem que temos das pessoas, mesmo assim), uma coisa é certa: as dicotomias preto no branco sem espaço ao cinza estão, mais do que em qualquer tempo, encurtando o pavio de homens e mulheres em todo o mundo. E isso se dá, mesmo quando tratamos de temas sobre os quais a divergência é mais de ângulo do que de substância. Essas deserções equivalem ao que seria, em outros tempos, levantar da mesa e ir embora do boteco, deixando o conviva a falar para as paredes. Na linha do "vou embora porque eu não mereço ouvir isso". Tive já inúmeros testemunhos dessa atitude. 

Como vem sendo fartamente noticiado ultimamente, muito dessa atitude se deve à configuração dos algoritmos. À custa de tanto receber estímulos e evidências de pessoas de julgamento (sic) semelhante, grassa, no íntimo de cada um, a convicção de que os dissidentes daquele evangelho são uns apóstatas celerados e que precisam ser banidos do horizonte e do convívio. Equivale, portanto, à dinâmica de vilarejos medievais onde, ocasionalmente, eclodiam "pogroms" e linchamentos. Bastava correr o boato oportunístico de que os judeus tinham envenenado um poço para que a turba invadisse o gueto e ateasse fogo às casinholas de madeira. Em igual medida, se suspeita de bruxaria, uma velha era sacrificada numa fogueira diante do olhar fascinado de algozes e passantes. 

Não há, portanto, no Facebook, tema importante que livre o missivista do opróbrio. Em política, então, tudo pode ser sancionado. Insuspeito de simpatia por Lula, por exemplo, uma vez escrevi que não deveriam tirar o nome da mãe dele de um parque no Recife. Pobre mulher, que culpa tinha? Ainda hoje lembro o nome dos "amigos" (agora sim, com aspas) que me enxovalharam com afirmações de que eu era petista. Chamar Trump de fronteiriço e debiloide, fato que poucos negam, também desencadeou fúria e fogo inclementes. Bastou dia desses questionar a decisão oca dele de negociar mal o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel, para que caíssem sobre mim apupos de incautos, gente que ignora os mais de 40 anos que me unem a Israel e sua gente. 

Já não sei quando foi o post que mais celeuma causou. É provável que na área de comportamentos e costumes concentrem-se os correspondentes de pavio mais curto. Como exemplo de reforço, bastou defender o brilhante jornalista William Waack, apedrejado por uma piadinha nefanda – dessas que nos saem da boca a torto e a direito –, para que recebesse acusações de conivência com o racismo. Mais recentemente, já não sei quantos "amigos" perdi por conta de ter aplaudido a posição de Catherine Deneuve no contraponto que fez a uma apresentadora de "talk show" dos Estados Unidos. A lamentar, apenas que uma série de afinidades se percam. E que se esvaia pelo ralo todo um histórico de cumplicidade alentado, farto até de trocas "in-box". 

É a ditadura inapelável dos algoritmos, amigos. Um convite à mesmice, à covardia e à busca do aplauso fácil. Lamento, mas para isso, não contem comigo. Prefiro oponentes francos e aguerridos do que um séquito de bajuladores que aplaudam fotos de cachorro e prato de macarronada. Minha praia é outra. Quem me conhece, sabe que não me empolgam as unanimidades.   


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comentarios




Nadia Cozzi

Parabéns! Realmente esse movimento manada está muito chato, burro e cansativo. Obrigada por suas colocações.

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