A novidade é o máximo?

Na tentativa de mudar o visual, vale até apelar ao que é feio

Por André D´Angelo

Rider completa 30 anos

Se o leitor é minimamente atento ao que acontece ao seu redor, deve ter percebido que os chinelos de tira única e larga, popularizados na década de 1980 pela marca Rider (foto), voltaram a ser usados. A quem pensou que certas invenções estéticas daqueles anos, de tão feias, nunca mais seriam vistas por aí, a novidade pode surpreender. Mas para quem entende a lógica da moda, nem tanto.

Diferentemente da publicidade, que quase sempre tenta fundamentar de maneira racional a compra de um produto, a moda não detém qualquer argumento funcional convincente. Ela conta com o simples prazer que a mudança de aparência provoca nas pessoas.

Daí a necessidade de, anualmente, sacar alguma coisa nova da cartola. Como a criatividade não é infinita, volta e meia é necessário recorrer ao passado para vender novidades, mesmo que o bom senso estético desautorize certas ressurreições.

Recentemente, foi assim com os óculos de armações grandes, com a calça de cintura alta e, agora, com as sandálias de tira única. Não importa se daqui a alguns anos alguém estará novamente constrangendo-se ao ver-se em fotos usando certas aberrações visuais. O que importa é sentir-se adequado ao momento.

A maior parte das pessoas passa ao largo das novidades da temporada, felizmente. Isso permite que, nas lojas, encontrem-se peças menos datadas, destinadas a quem não adere ao visual da hora. O problema ocorre quando uma moda, de tão hegemônica, torna antieconômico produzir e estocar produtos tidos como esteticamente superados, por mais bonitos e atemporais que sejam. Anos atrás, era difícil encontrar um sapato masculino que não tivesse o bico quadrado, ou uma calça jeans feminina que não fosse de cintura baixíssima. Em situações assim, a moda se torna a pequena ditadora de que seus críticos tanto a acusam.

Para quem acompanha o ir e vir das aparências com alguma surpresa, por ver renascidos itens que pareciam condenados à lata de lixo fashion, resta a frase sábia de Molière: “estando em moda, todos os vícios passam por virtudes”. Mais verdadeira, impossível.


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