Dança do acasalamento

O caso da Amazon expõe o jogo de seduções entre empresas, municípios ávidos por investimentos e os millenials

Da Redação, com Universia Knowledge@Wharton*

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O caso da Amazon expõe o jogo de seduções entre empresas, municípios ávidos por investimentos e os millenials

Em setembro do ano passado, a gigante da tecnologia Amazon anunciou que estava em busca de um local para instalar sua “segunda sede”, o HeadQuarter2 – na prática, um novo quartel general, para além da sua base instalada em Seattle, noroeste dos Estados Unidos. Os pré-requisitos para as postulantes não eram simples: possuir mais de um milhão de habitantes, ter uma população diversa e governos dispostos oferecer o máximo em subsídios e flexibilidade de regulamentações. Mesmo assim, em poucos dias, mais de 200 cidades ofereceram seus currículos, com candidaturas de todas as regiões do país, e também do Canadá. Tudo para atrair uma operação que vai além dos 50 mil empregos projetados para a nova sede da empresa de US$ 462 bilhões, comandada por Jeff Bezos.

Às exigências da Amazon para as candidatas soma-se o fácil acesso às grandes rodovias e a distância de, no máximo, 45 minutos até um grande aeroporto. Entre as informações requisitadas, também estão o detalhamento da qualificação das universidades e da mão de obra local. A impressão é de que a empresa quer, em seu novo endereço, encontrar um ambiente próximo ao que desfruta em Seattle – onde abriga 40 mil dos seus 380 mil empregados em todo o mundo.

Ao anunciar a busca por uma cidade businness friendly, a Amazon também abriu espaço para críticos que apontam o interesse da empresa em maximizar seus lucros, abrindo uma disputa por benefícios fiscais e isenções. O próprio presidente Trump, em seu movimentado twitter, acusou a companhia chefiada por Bezos de “prejudicar os comerciantes que pagam impostos”, provocando a perda de muitos postos de emprego. Mesmo em Seattle, os legisladores acusam a marca de inflacionar o mercado imobiliário local, o que os levou a formular uma lei que aumentou os impostos sobre as maiores faixas de renda, atingindo os principais salários da Amazon local. 

O que quer a Amazon?
Mas há o outro lado da moeda. Se, ao anunciar a busca de uma segunda matriz, a Amazon quis criar uma disputa entre cidades, gerando milhões de dólares em publicidade gratuita, a estratégia funcionou. Muitos observadores acreditam que a Amazon já saiba há muito tempo onde quer se instalar - ou, pelo menos, jamais considerou seriamente mais de dois ou três locais específicos -, já que são poucos municípios que atendem aos critérios exigidos.

A Amazon é grande, e a recompensa para a cidade vencedora pode mudar sua vida. No entanto, ao pesquisar uma localidade para sua segunda matriz norte-americana, o que importa para a Amazon são muitas das mesmas coisas importantes para várias outras empresas. “Para a maior parte das companhias, a questão da localização, hoje em dia, tem a ver com a disponibilidade de mão de obra”, explica Peter Cappelli, professor de Administração da Wharton e diretor do Centro de Recursos Humanos da instituição. “No caso das funções que não requerem especialização, e das que exigem pouca especialização, será possível contratar profissionais pelo preço que desejamos pagar? Nenhuma empresa vai para o Vale do Silício ou para Nova York porque o custo é mais baixo; elas vão para lugares assim por causa da oferta de mão de obra”, avalia. “Tudo se resume ao acesso aos clientes, à força de trabalho e aos fornecedores - todos eles têm um papel a desempenhar nessas decisões”, diz Christopher Thornberg, sócio-fundador da empresa de pesquisa econômica Beacon Economics, de Los Angeles. Com isso, a Amazon busca uma força de trabalho que seja jovem e instruída - o que significa geralmente que ela quer recrutar a já famosa geração dos millennials. 

Mas o que querem os millennials? “Tudo”, crava Fernando V. Ferreira, o brasileiro que é professor de Bens Imóveis, Economia Empresarial e Políticas Públicas da Wharton. “Eles querem uma cidade com opções culturais, um local com bares e restaurantes onde possam se divertir e trabalhar. E o que é muito importante é gente como eles mesmos”, explica. Segundo Ferreira, trabalhadores altamente especializados querem morar perto uns dos outros. “Os empresários sabem disso e dão muita atenção a esse detalhe. Por isso os municípios que apresentam essas características têm uma enorme vantagem. O lugar com maior índice de pessoas instruídas, com gente de nível universitário é, de longe, o nordeste dos Estados Unidos”, completa.

Mas nem todas as buscas acontecem pelas melhores razões. Em alguns casos, a nova sede apenas acompanha o interesse do CEO em morar em determinado local. As razões da Amazon, porém, são convincentes. A companhia cresceu mais do que o espaço de que dispunha em Seattle. Ferreira ressalta que, embora a Amazon tenha preferido se expandir ali, o ciclo de desenvolvimento na Costa Oeste, de San Diego a Seattle, é tão avançado, e as restrições de zoneamento imobiliário e as regulações tão onerosas, que os preços dispararam. “Com isso, a viabilidade financeira da operação se tornou um problema. Por isso, é bem improvável que a empresa escolha uma localização na Costa Oeste”, projeta.

Algumas empresas podem precisar de uma segunda sede para ficar próximas dos clientes, mas não é o caso da Amazon. Cappelli afirma que, embora a grife tivesse apenas algumas cidades em mente antes de começar seu processo de busca, esse formato de loteria é, em parte, vantajoso. Isso porque, com o processo, a Amazon vai aprender sobre questões com que terá de lidar nos locais que já fazem parte da sua lista de preferidas. “Os governos locais e estaduais têm grande poder de influência nessas decisões? É claro que os cortes de impostos pesam, mas o que importa é dar às empresas a sensação de que o governo vai procurar realmente ajudar, em vez de atrapalhar”, ressalta Cappelli. “Parte disso tem a ver com a qualificação dos funcionários. É importante, também, ajudar as novas empresas a navegar pelas questões de infraestrutura, transportes etc. Porém, a influência dos governos nas negociações desse tipo também desperta críticas – sobretudo em relação à possibilidade de uma empresa ser favorecida, enquanto milhares de outras não desfrutam do mesmo poder de barganha”, justifica ele. 

Entre as potenciais cidades candidatas, a Moody’s Analytics classificou, em um primeiro patamar, Austin, Atlanta, Filadélfia e Pittsburgh como favoritas. Os critérios considerados foram o ambiente comercial, o capital humano, o custo de vida, a qualidade de vida, o transporte e a geografia. O prêmio é grande: a Amazon diz que contratará 50 mil novos funcionários em tempo integral, com salários médios anuais superiores a US$ 100 mil dentro dos próximos dez a 15 anos, a partir do início das operações. O projeto – cuja estrutura pode chegar a 750 mil metros quadrados – deverá exigir o investimento de mais de US$ 5 bilhões. As operações da Amazon em Seattle, de 2010 a 2016, aportaram US$ 38 bilhões na economia da cidade, segundo estimativas da empresa. “A cidade em que a Amazon se instalar terá muito a ganhar”, aposta Ferreira. A presença de uma nova matriz, seja onde for, “atrairá mais empreendimentos e o ambiente empresarial se expandirá”.

Contudo, onde quer que a Amazon instale sua segunda matriz, e seja quais forem os sacrifícios da localidade para receber o negócio, um caso dessa relevância não deve se repetir tão cedo. “Processos assim acontecem há muito tempo. Não há nada de novo nisso – as empresas decidem abrir uma nova fábrica e as cidades e países entram na disputa”, argumenta Ferreira. “Porém, normalmente, a coisa não ganha tanta publicidade. A empresa faz contato com a câmara de comércio, anuncia em diferentes cidades e depois as cidades vão atrás da fábrica. E é isso. Mas esse caso da Amazon é uma coisa gigantesca, pois a empresa é gigantesca”, comenta Ferreira. “Não há muitas companhias que tenham crescido tanto e que tenham o nome que a Amazon tem, e que sejam capazes de criar tanta agitação”, lembra Thornberg. “Quem mais conseguiria isso? Talvez a Microsoft, o Google ou a Apple. Se a Boeing fizesse o que a Amazon está fazendo, as pessoas diriam se tratar de um evento colossal, mas não ficariam tão empolgadas assim.”

Polo de atração no Brasil
Em março de 2017, o Peixe Urbano – a maior plataforma de compras coletivas e ofertas locais do país – mudou sua sede do Rio de Janeiro para Florianópolis. A justificativa foi ampliar a sua atuação nacional e investir na capital de Santa Catarina por considerar este um dos Estados com maior atuação em ciência, tecnologia e inovação. “Acreditamos que a mudança vai ao encontro do espírito empreendedor da companhia e irá contribuir muito para o desenvolvimento dos nossos colaboradores”, disse, à época, Anderson Valverde, diretor de recursos humanos da empresa. A companhia de e-commerce – que no final de 2017 anunciou sua fusão com o antigo rival Groupon – nasceu no Rio e contava, então, com outros três escritórios, em São Paulo (SP), Itajubá (MG) e Montevidéu, no Uruguai. O escritório do Rio foi mantido como base para o time comercial regional e para outras equipes. Com a mudança, o CEO, Alex Tabor, e todos os diretores do Peixe Urbano trocaram de endereço. A intenção foi manter a estrutura organizacional, permitindo que todos os funcionários mantivessem suas funções, caso optassem por fazer parte da equipe na nova sede.

A capital catarinense vem se destacando em diferentes estudos que a trazem como bom destino para empresas tradicionais ou startups. Conforme o Índice de Cidades Empreendedoras – ICE 2017, elaborado pela Endeavor, Florianópolis é a segunda cidade com melhores condições para abertura de empresas ou expansão de negócios no Brasil. A capital catarinense é tida como um berço para empresas da nova economia e oferece uma combinação poderosa para atrair empreendedores: custo de vida muito baixo e mão de obra qualificada. Outra capital do Sul, Curitiba, surpreendeu positivamente no mesmo estudo. A cidade paranaense chegou ao quarto lugar, subindo 11 posições em relação ao ano anterior. O estudo da Endeavor também destacou munícipios médios da região, caso das catarinenses Joinville e Blumenau. Esta última obteve um crescimento de 7,75% do PIB entre 2012 e 2014, valendo-se da base de empresas exportadoras residentes na cidade. Guardadas as devidas proporções, a escolha do Peixe Urbano por Florianópolis – além da tradição de Joinville e Blumenau como berço para empresas de software e tecnologia – pode ser vista como indício de que Santa Catarina é o mais próximo de um ambiente similar ao Vale do Silício no Brasil? Jaime de Paula, presidente da pujante Neoway, acha que sim, conforme revelou recentemente em entrevista a AMANHÃ. “Sou suspeito para falar. Um sócio nosso vem de uma empresa do Vale do Silício. Ele conhece o mundo todo e quando esteve em Florianópolis pela primeira vez, disse que, se houver um Silicon Valley no Brasil, vai ser em Florianópolis”, recorda Jaime. O executivo justificou sua previsão: “Boas universidades, boa qualidade de vida, boas praias. Não é só arranha-céu, não é grande”. 

Jaime traça o paralelo: “Se você comparar com o Silicon Valley, a maior cidade é San Jose, que tem 1 milhão de habitantes. São Francisco tem 800 mil. São áreas de praia também, com bastante sol. E conseguimos atrair muitos talentos a morar em Florianópolis, hoje, pela qualidade de vida”, explica. Porém, ainda há muito espaço para evolução. “Falta conseguir atrair fundos de investimento para coletar esse ecossistema de boas ideias, de boas universidades, de boas pessoas. Precisa de dinheiro para financiar, para isso crescer”, avalia. 

*Serviço gratuito disponibilizado pela Wharton, Escola de Administração da Universidade da Pensilvânia, e pela Universia, rede de universidades que tem o apoio do Banco Santander.  

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