The Corporations

No Brasil, o inimigo não são as empresas, e sim o corporativismo

Por André D´Angelo

No Brasil, o inimigo não são as empresas, e sim o corporativismo

No início da década de 2000, o americano Joel Bakan escreveu um livro chamado “The Corporation” (“A Corporação”), mais tarde transformado em especial de TV e documentário. Nele, o autor acusava as empresas privadas de perseguirem o lucro de maneira doentia, ignorando o impacto de suas ações sobre as sociedades em que atuavam. Segundo Bakan, o capitalismo incentivaria uma espécie de egoísmo patológico, corrompendo pessoas que, na esfera pessoal, nada tinham de ameaçadoras ou autocentradas, mas que uma vez no papel de executivos de grandes companhias adotavam o lema do ganho monetário a qualquer custo. O resultado seria uma postura quase demoníaca, retratada na ilustração da capa: um executivo com auréola e asas angelicais, mas rabo de diabo (mais sobre o livro e o filme, aqui, em inglês).

Se Bakan viesse ao Brasil, poderia escrever uma versão muito particular de seu livro ou filme. Só que teria de fazer uma leve alteração no título, para adaptá-lo à realidade local e a uma sutileza do vocabulário, chamando-o de “As corporações”.

Com isso, faria referência não às companhias privadas, mas a grupos de interesse que, instalados no Estado ou protegidos por ele, fazem de suas demandas leis pétreas que penitenciam todo o restante da população. E que para serem mudadas exigem um custo político elevado, daqueles de desestimular qualquer mandatário cheio de boas intenções.

Exemplos, o americano acharia a baciadas. Poderia começar com o tema do momento, a Previdência Social, deficitária em seu braço estatal. A aposentadoria de 1 milhão de funcionários públicos provoca um rombo equivalente ao de todo os trabalhadores da iniciativa privada, com a especial contribuição dos militares, que, além de excluídos da reforma atual, retiram-se antes do 50 anos – pois, sabe-se bem, é dura a vida no campo de batalha.

O livro/documentário teria de traduzir para leigos a retórica legal que embasa os salários de Judiciário e Ministério Público, acima do teto constitucional, bem como suas férias anuais de 60 dias. E tentar explicar por que uma estatal cuja atividade está em vias de extinção paga plano de saúde para os pais (!!!) de seus funcionários, enquanto presta um serviço cada vez pior, volta e meia interrompido por greves que, de tão frequentes, já se tornaram parte do calendário nacional

Ah, sim, e como deixar de falar de nossos “trabalhadores em educação”? Aqui, sugiro a Bakan uma passagem pelo Rio Grande do Sul, Estado no qual os professores rejeitam qualquer tipo de contrapartida aos aumentos de salário reivindicados em greves que batem recorde de duração, embora seus colegas da capital ofereçam um exemplo acabado de que remuneração maior não se traduz necessariamente em melhor qualidade de ensino, ao contrário do que querem nos fazer crer. 

A lista é longa, mas a obra teria de conferir uma atenção especial aos médicos, eternamente zelosos de sua reserva de mercado e da isenção de compromissos mundanos, como o de bater o ponto no emprego. Sem eles, o livro/filme não estaria completo. 

Diante da ferocidade dessas “corporations”, talvez Bakan repensasse quão malévolas são as corporações que ele retratou em seu trabalho – e concluísse que cada país tem os “diabos” que merece. 

Feliz 2018.

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