Carlos Heitor Cony

Eis mais um escritor que tivesse nascido na França, Inglaterra ou EUA, teria a dimensão de Zweig, Maughan ou Camus

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Carlos Heitor Cony morre aos 91 anos

A caminho do Brasil, soube da morte de Carlos Heitor Cony. Sem nunca tê-lo visto pessoalmente, muitas décadas de convívio com seus textos reforçaram em mim uma sensação comum a milhões de leitores: a de que nele tínhamos um amigo à mão. Por vezes lírico, não raro meio rabugento, frequentemente engraçado, eis mais um escritor que tivesse nascido na França, Inglaterra ou Estados Unidos, teria a dimensão de Stefan Zweig, Sommerset Maughan ou Albert Camus.

Um traço que sempre me chamou a atenção foi a facilidade com que parecia escrever. Ora, quem se aventura a rabiscar uma crônica vez por outra, sabe que é mais trabalhoso do que aparenta construí-la de forma a que a leitura flua. Tudo em nome do interesse maior de cativar sua majestade, o leitor. No caso de Cony, até por temperamento, a impressão que fica é que a forma ideal já nascia pronta na primeira tentativa, sem ceder, ademais, a quaisquer tentações beletristas. 

De sua vasta produção, o destaque vai para "Quase memória", um livro que comprei numa tarde de chuva, em São Paulo, e não larguei até a madrugada seguinte, encantado que fiquei com a figura intrigante do pai do escritor. Não tenho ideia de quantos exemplares devo ter comprado para dar de presente, mas sei que foram muitos. A obra que menos me seduziu, talvez, tenha sido o livro-tese de que houve sincronia deliberada na morte de Jango, JK e Lacerda.     

Mas o Cony que vai fazer falta inimaginável é o cronista da Folha de S. Paulo. Pois era nesse espaço que desabrochava o melhor do "causeur". Dono de imensa agilidade mental, via-se que não raro o texto começara com uma mera frase de auto-provocação no alto da página. E que o restante certamente fluíra em resposta a quem fez da escrita, e certamente também da leitura, sua verdadeira profissão de fé. Não, não sou de chorar quem se foi aos 91 anos, uma marca invejável. 

Que Ruy Castro aguente firme, pois a responsabilidade dele agora é dupla.  


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