Alorpados e emasculados

Essa gente jovem diz amar a humanidade. Isso é fácil. Quero ver ter empatia com o próximo

Por Fernando Dourado Filho, de Riga (Letônia)

Fernando Dourado Filho conta suas desventuras em hotel da Estônia

Na noite de 1 de janeiro estava eu em Tallinn, na Estônia, num hotel razoável, localizado no coração da cidadela. Depois de um passeio para esticar as pernas, finda a travessia de ferry que me trouxera de Helsinque, na Finlândia, cheguei ao apartamento pronto para tomar uma chuveirada quente, escrever uns apontamentos, ler um pouco e dormir. Ao tentar me conectar com a internet, contudo, vi que o wi-fi não funcionava. O que estaria acontecendo justo na pequenina república báltica que se jacta de ser uma referência em informática? Acaso não foi ali que se criou o Skype e outras tecnologias aplicadas? O rapaz me confirmou que a rede estava fora do ar. Perguntado se o hotel não dispunha de um sistema redundante para ajudar os hóspedes, disse que não. E assim as coisas teriam ficado se eu não tivesse ameaçado sair do hotel e buscar outro por conta deles. 

Nesse momento, diante do pior, ele me disponibilizou uma rede e uma senha de uso próprio e tudo se resolveu a contento. Mas se eu não tivesse subido o tom, ele teria ficado encapsulado na zona de conforto da resposta simples. Afinal, dizer não é fácil para uma geração de baixíssimo compromisso com a necessidade alheia. Essa total falta de empatia pessoal acoplada à abulia faz com que um amigo os chame de os emasculados. Não sei se é adequado, mesmo porque os eunucos eram muito espertos e expeditos. Prefiro ficar com a denominação de minha mãe que a essa gente se refere como os alorpados, termo caro aos nordestinos. Seja como for, é um caso a ser estudado. Como podem ter tanto tempo para cuidar da barba e nenhum para entender as necessidades profissionais dos hóspedes que lhes pagam os salários? 

Hoje, 3 de janeiro, na linda Riga, na Letônia, fui à recepção do hotel e pedi 3 tickets para vermos "Quebra Nozes", o popular balé natalino que acontecerá na Ópera local logo mais. O rapazinho, cheio de verdades e meneios, me diz que a lotação está esgotada há um mês. Eu sei, rebati, por isso que estou lhe pedindo para conseguir. Se estivesse à venda, eu já os teria comprado. "Mas como quer que eu faça?". "Não sei, meu caro. Google, amigos, parentes, cambistas, assinantes, desistentes, influências, conexões, leilão eletrônico, enfim, você escolhe. Às 5 da tarde estarei aqui, pago o que for, porque às seis começa o balé". Desesperado, ele chamou a gerente, que deve ser um simulacro de figura materna dentro da mitologia pessoal dele. É incrível como sucumbe à pressão, para tanto bastando tirá-lo da zona de conforto. 

Assim sendo, num átimo perdeu o sotaque empostado, gaguejou, a testa porejou, e lá se foi o garbo de concierge de hotel estrelado. "Ele não está aqui para isso. Tanta inventividade não consta do "job descritpion", senhor", disse a protetora. Hoje à tarde, fiquei imaginando que chances um camarada desses tem de afrontar as demandas da vida adulta com sucesso, se conta com esse tipo de proteção no trabalho – uma extensão do esquema que tem em casa. Resumindo: há pouco compareci à Ópera para lhes dizer de meu interesse. Com uma piscadela de olho, uma velha "babushka" conseguiu os ingressos com meros 5 euros de ágio sobre cada um. Viva a velha guarda. Não temos tatuagem nos bíceps, nem brinco no nariz. Mas não somos alorpados. Nem emasculados, como prefere meu amigo de maus bofes.          

Essa gente jovem diz amar a humanidade. Isso é fácil. Quero ver ter empatia com o próximo. E largar o celular.


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