O noivado da Embraer

O Brasil deve fazer como Anitta que se juntou aos bons e ganhou o mundo. Se ela pode, por que não nossos jatos?

Por Fernando Dourado Filho, de Frankfurt (Alemanha)

Jato fabricado pela Embraer

É irracional a atitude inicial do governo (já nem falo de sindicalistas e desinformados) ao interesse da Boeing em se associar à Embraer, um justo orgulho nacional. Nem bem as intenções do noivo americano são colocadas sobre a mesa e já ecoam os brados acusatórios de entreguismo e perda de soberania. Como se virgindade ainda fosse virtude e a empresa estivesse condenada a ser uma solteirona admirada, confinada no claustro do nacionalismo arcaico. Tal como as reações em cadeia deflagradas nas redes sociais, a regra é a histeria e o adesismo acrítico ao efeito manada. Que os diletantes – a imensa maioria – pensem que estamos abdicando de uma riqueza tangível, à margem das injunções de um sofisticado mercado global, com cuja complexidade sequer sonham, é até perdoável. Mas o que não pode acontecer é que o Palácio do Planalto, oportunisticamente, faça coro a essa patranha que cheira a naftalina. 

Nesse contexto, já está claro que não poderemos resgatar em 2018 a agenda de reformas que seguia seu curso. Mas algo nessa linha deverá ser retomado, de forma a que Michel Temer passe ao sucessor um país mais robusto. De mais, ninguém lhe nega o mérito extraordinário de ter mantido a serenidade em plena tormenta, e de legar à sociedade, já no final de 2017, a diminuição da inflação, do risco-país, da taxa de juros, além de uma estupenda safra agrícola, acoplada à inverossímil recuperação do lucro das estatais. Se esse agregado já seria um feito notável em circunstâncias normais, muito maior foi o mérito de tê-lo logrado na adversidade. Daí minha perplexidade com a reação estouvada do Executivo ao anúncio do noivado da Embraer com um sólido pretendente. O que é isso, Temer? Ninguém está imune a defeitos, sequer a Presidência. Mas ceder a impulsos populistas não deveria ser um deles, pois de todos é o mais danoso.    

Embora a aviação comercial e militar não devessem ser objeto de achismos de mesa de bar, precisamos oxigenar nossos ambientes corporativos até como forma de deitar luz nos espaços sombrios, onde vicejaram as más práticas. O Brasil é fechado como uma concha, daí as empreiteiras terem feito o que fizeram. Nossa reação ao que vem de fora é exacerbada e defensiva. Reage-se como se o capital estrangeiro aqui aportasse para nos subtrair alguma riqueza e conspurcar nossa pureza. Espero que Temer não se deixe embalar pelo aplauso fácil e não opte por adubar popularidade à custa do país. Nesse caso, mil vezes continuar impopular e deixar a Embraer decidir sobre seus rumos, como vem funcionando em outras áreas do governo. E, sobretudo, que jamais se diga "não" por dizer, sem avaliar as consequências. Esse tributo aos anos 1950 não pertence ao Brasil do futuro. 

Na dúvida, o Brasil deve fazer como Anitta que se juntou aos bons e em poucos dias ganhou a atenção do mundo. Se ela pode, por que não nossos jatos? E que venha 2018.  


leia também

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: