Um colégio especial

Sob muitos aspectos, o aprendizado no Ginásio de Aplicação da UFPE era inovador

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Sob muitos aspectos, o aprendizado no o Ginásio de Aplicação da UFPE era inovador

Hoje soube que o Ginásio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco está completando 60 anos. Isso significa que ele tinha apenas 12 quando ingressei lá, em 1970. No ano que prestei o concurso, éramos 500 crianças que disputavam 30 vagas. O critério era o das notas mais altas de 15 meninos e 15 meninas. Eu não fizera nenhuma preparação especial, como a maioria. Foi, portanto, uma inusitada surpresa para um franco atirador. Até gostava muito do São Luiz, onde estudara antes. Mas o Aplicação era um bilhete premiado, ademais de ser gratuito, o que meus pais certamente não acharam ruim, apesar de nunca terem feito referência a esse fator na ocasião. A decisão ficou em minhas mãos e terminei por aceitar.

Contrariamente ao anterior, com dois campos de futebol de grama que eram um orgulho, o Aplicação era rústico e desaparelhado. Praticávamos esportes num pátio de pedras e uma queda ali significava joelho ralado e calça no conserto para cerzir. Os alunos eram muito capazes, mas não escapávamos de certa normalidade, mesmo porque muita gente era boa em temas da escola, embora fosse bastante desmunida de conhecimentos gerais. O primeiro dia foi marcante. Num pequeno auditório improvisado, o professor Rubem Franca contava uma divertida história sobre um fantasma amarelo que, tendo levado um banho de tinta azul, ficara verde. Ou seria o contrário? Em pouco tempo, estabeleceram-se laços entre os alunos e dali sairiam sólidas amizades. 

Sob muitos aspectos, o aprendizado era inovador. Com professores da própria universidade federal, tínhamos aulas de sociologia, filosofia e música. O aprendizado de línguas era primoroso e alguns dos mestres nos acompanham até hoje. Nos jogos estudantis, tínhamos de nos desdobrar em várias modalidades porque éramos muito poucos. Tinha gente que nadava, corria, jogava vôlei e competia no salto em distância. É óbvio que tínhamos um certo orgulho de integrar uma confraria pequena e bem soldada. Fortemente politizado, sou tentado a reproduzir uma frase de Carlos Lacerda, em seu livro de memórias. A certa altura, ele disse que da casa de seu avô, não tinham saído necessariamente pessoas felizes. Mas de lá não saíra nenhum idiota. 

São muitas as histórias do Aplicação. Um dia, vou me debruçar sobre elas com carinho.   


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