São Paulo, 33°

Graças ao calor e ao caos previdenciário, preparei dias de felicidade plena

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Termômetro marcando 33 graus

Invariavelmente, quando a semana vai chegando ao fim, mando meu post para o blog "Ao Redor do Mundo" no final da manhã. Então saio para almoçar e, quando volto, sou informado de que já está editado, e até mesmo postado no Twitter. Antes de desligar o computador – sou das antigas, não trato muito de temas de escritório pelo celular –, eventualmente divulgo o artigo no Facebook e está dada minha contribuição para o progresso das ideias. Então, se não vou viajar, entrego-me às tertúlias do anoitecer, cada vez mais restritas a um drinque e um livro. 

Mas hoje o calor demoníaco que se abateu sobre São Paulo me tirou de tempo. Às 11 da manhã, participava de uma reunião sobre a Previdência. Por mais que quase todos os presentes fossem pessoas sérias e cordatas, a explosividade do tema se traduziu num mal estar que só fez crescer à medida que o tempo passava. Como a casa estava bem representada, pedi licença e saí para respirar o ar puro. O problema é tão sério que a impressão que dá é que nenhum esforço estancará a sanha dos oportunistas. Como explicar o caos que se avizinha? 

Pulei num táxi e toquei então para o restaurante onde se reúnem professores amigos para comer uma moqueca, na penúltima sexta-feira que antecede o Natal. O trânsito estava infernal, quase não avançava na parte baixa dos Jardins. A nosso lado, uma senhora senil ao volante e uma babá irresponsável, levavam uma criança de colo entre elas. Ou seja, no banco dianteiro. Um motorista resolveu adverti-las do perigo. A avó não se deu por achada: "Obrigado, moço, mas ele ainda é pequeno. Se aparecer um guarda, baixamos a cabeça dele". Que ignorância é maior: esta ou a da Previdência?  

No restaurante, o calor desequilibrava um gladiador. Tomei um chope para não ser indelicado, mas avisei que iria sair antes das duas da tarde porque ainda tinha muito a fazer. E amanhã de manhã viajo para São José do Rio Preto, onde fico até o fim do dia. Os colegas me olharam com desmazelo. Pareciam se perguntar: mas vale a pena tanto esforço? Logo imaginei que embora não estivessem na reunião de hoje cedo, são sábios em pegar leve e em não levar a vida tão a sério. Em dado momento, deixei meu presente para um amigo e só então me esgueirei à francesa.  

No caminho, ainda passei na lavanderia, peguei a roupa e deixei-a em casa. Já estava fora do escritório há 90 minutos e tinha a sensação de que estava atrasado para tudo. No meio do engarrafamento da volta, espremido pelo cinto de segurança e purgando os horrores de um ar condicionado que não funcionava, senti o suor frio porejar na testa. Será que infartava? Fechei os olhos e pensei num campo cheio de neve sob um céu escuro e estrelado. Cheguei à minha mesa de decisão tomada: contrariando tudo o que planejara, preciso do frio de dezembro no norte da Terra. 

Na minha mesa, só precisei de dez minutos para providenciar a próxima revoada. Chegada a hora, vocês saberão para onde. Sou assim: diante de uma coisa muito ruim, tenho o cacoete de transformá-la em algo bom. Graças ao calor e ao caos previdenciário, preparei dias de felicidade plena. Não resolverei sozinho o déficit, mas posso me presentear com um superávit de felicidade. 


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