O teatro da vida

No palco e na vida não há espetáculo sem picardia e bons chistes

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

No palco e na vida não há espetáculo sem picardia e bons chistes, diz Fernando Dourado Filho

Quando a saudosa atriz Eva Todor, falecida no último domingo, estreou no teatro brasileiro, o escritor Paulo Magalhães foi anunciar o elenco da peça ao microfone. Ao se deparar com o sobrenome de batismo – Fódor –, por alguma razão achou a sonoridade húngara inadequada ao português, e sugeriu de pronto que se substituísse uma consoante. O que soava bem em Budapeste, caía mal no Rio. Essa história consta do "Livro de Jô", memórias do humorista e apresentador Jô Soares. Já da relação dele com a dramaturga Ruth Escobar, a altiva portuguesa de Campanhã, conta o gordo que recebeu um pagamento em cheque. Mas este, quando apresentado ao banco, não tinha fundos. Jô estão submeteu ao caixa uma fórmula. Sem quebrar o sigilo do saldo, especulou sobre se desse, por hipótese, 20 cruzeiros, haveria provisão para honrar os 100 que lhe eram devidos? Positivo, respondeu o rapaz com um meneio de cabeça. Então fez o depósito e, de imediato, o saque pelo valor integral. Ao revê-lo, Ruth estava furiosa: "O que fizeste, pá? Fiquei sem um tostão para pagar o elenco, limpaste a conta". Diante do estratagema, ela exultou. "Genial, aprendi mais uma". E continuaram amigos. No bom teatro, no palco e na vida, não há espetáculo sem picardia e bons chistes.   

Sábado último, contudo, tive o duvidoso privilégio de assistir a uma montagem de terceira. Mais precisamente, em Brasília, quando o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, impediu que Geraldo Alckmin fosse aclamado candidato à Presidência da República pelo PSDB, por querer, alegadamente, também ter seu nome avaliado por mais de 1 milhão de tucanos. O que estaria por trás de encenação tão farsesca em momento de mobilização? Que picuinha se escondia para além do sectarismo empolado, que não convencia sequer criança de que era sincero? Um convencional me contou então que Virgílio queria marcar posição tão somente para preservar a Zona Franca amazonense. Se essa é a agenda oculta do manauara, pensei, faz-nos ele imenso mal. Criada no governo militar, a Zona Franca é caso sem precedentes no mundo, pois se trata da única que funciona para dentro do país hospedeiro. Corruptela da guerra fiscal, trata-se de uma excrescência que precisa ser repensada em seus moldes. De feitio histriônico, Virgílio protagonizou o mau teatro que lhe é próprio. Merecia o sobrenome original de Eva. E que o demovessem da ideia de passar para o Brasil um cheque daqueles de Ruth Escobar. 


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