Doria, um aprendiz em recuperação

Não resta ao prefeito outro caminho que não seja o de se reinventar

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Doria, um aprendiz em recuperação

Nesta semana o Brasil ficou boquiaberto ao ver que a taxa de rejeição ao prefeito de São Paulo, João Doria, já se equipara, à essa altura do jogo político, à do antecessor que, além de ter cumprido o mandato na íntegra – logo, tendo ficado mais exposto ao desgaste –, carregou consigo o ônus terrível de pertencer ao PT, justamente quando vieram à baila os escândalos mais aberrantes. Era mais do que esperável, portanto, que a popularidade de Hadad se ressentisse enormemente, como aconteceu. O mais chocante do caso presente, contudo, reside no fato de que o atual mandatário ganhou a eleição em primeiro turno há um ano, e teve largada fenomenal, com índices de aprovação altíssimos, no bojo de ações que pareceram meritórias à cidadania, por mais midiáticas que fossem. O que todos se perguntam hoje é o que pode ter contribuído para que tenha ocorrido tamanho esfarelamento? Por que a erosão de material prematura? O que será que não está dando certo, ademais das ruas esburacadas?  

Sem quaisquer deméritos, já é tempo de concluir que Doria talvez não seja do ramo. Da política, quero dizer, o que tem até uma conotação positiva na sociedade contemporânea. Desde que, bem entendido, não se ultrapassem alguns limites. Ora, a vida do prefeito se construiu em cima de publicidade e promoção de eventos. Em certa medida, como a de Trump. Assim sendo, convenhamos, tudo acontece em torno da sedução da plateia, de um certo donjuanismo. Concluída a conquista e cativado o público, o conquistador precisa de novas frentes, pois aquela já lhe deu a adrenalina que tinha a dar. A persistir a festa, ela só tem a perder em brilho e apoteose. Então, chega a hora da última entrevista, do último flash e da saída triunfal. Ocorre que o evento eletivo dura intermináveis 4 anos. Para quem tem muito a propor, é uma ninharia. Para quem quer só causar impacto e motivar a audiência aspiracional, é uma eternidade. O que lhe resta? Buscar uma saída honrosa ou se reinventar.

Ora, no ramo a que ele pertence originalmente, se uma festa é um "flop" – um fracasso –, promove-se uma de igual calibre ou maior. Fiel ao figurino, ele foi buscar endorfina na postulação à Presidência da República. Espelhado nas trajetórias de Trump – de quem tem um pouco –, e de Macron – de quem ele gostaria de ter o calibre –, Doria sonhou grande. Como exigia dos candidatos a gestor do programa "O Aprendiz". Diante dos números aberrantes, e sentindo que o desgaste na prefeitura é inexorável, pleiteou ser vice-presidente da República, o que lhe facultaria também uma saída honrosa. Convencido de que não há espaço para chapa "puro-sangue" – do mesmo partido –, voltou-se mais recentemente até para o governo do Estado de São Paulo, como forma de se suprir de adrenalina, mesmo sabendo que seria desumano o desgaste a que se submeteria para explicar a deserção do cargo para o qual foi eleito. Ademais de danoso ao partido que lhe deu legenda. Como fazer, portanto?

Não é um problema de solução fácil para o prefeito. As saídas sempre serão muitas, mas se ele quer prezar pela sua biografia – e acredito que queira, quanto mais não fosse pela vaidade  e pelo justo orgulho de se ter construído politicamente do quase zero –, talvez o melhor mesmo fosse buscar a porta de entrada. E esta atende pelo nome de trabalho. Governar São Paulo é fascinante. Olavo Setúbal, gestor de mão cheia, disse que renasceu sob o ponto de vista motivacional, quando aceitou o desafio. E nunca lhe passaria pela cabeça gerir as equações de trânsito, educação e segurança a partir de um smartphone. O que concluir? Que não resta ao prefeito outro caminho que não seja o de se reinventar. Gestão é acolhimento, é carinho e escuta ativa. No lugar dele, fosse ele o aprendiz de meu programa, eu aposentaria aquela pasta Louis Vuitton onde ele leva o retoque da maquiagem para as 12 filmagens que faz ao dia, e suaria a camisa nesse verão. Mão na massa, João. Ou, como você gosta de dizer, "hands on". 

Um apelo: desperte o quanto antes porque, pelo andar da carruagem, sua audiência vai despencar e seu público vai dizer em uníssono: "Doria, você está despedido". O que seria uma pena, convenhamos. Os sectários que você substituiu não querem outra coisa. Logo, pare só de se enxergar e foque no panorama. São Paulo e o Brasil agradecerão. O momento é de agregar de todos os lados.

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