Tomando a sopa pelas bordas

Percebi o cenário quando vi um verdureiro chinês estabelecido no mercado central de Budapeste

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Quem me lê com alguma frequência, sabe do fascínio que tenho pela Europa do Leste. Em igual medida, também me interessa tudo o que venha da China, cuja envergadura imperial não para de nos surpreender. Daí talvez querer hoje tratar do ponto de junção dessas duas vertentes civilizacionais que, em comum, compartilham o legado (ou deveria dizer o fardo?) de ter atravessado a Guerra Fria sob o regime de economias centralmente planificadas. No caso dos 16 países da Europa do Leste, com matriz de poder sediada em Moscou. O que faz do socialismo eslavo-balcânico um primo do comunismo chinês, se forçarmos apenas um pouco as analogias. 

Mas onde quero chegar, perguntará com razão o leitor. Ora, em maior ou menor proporção, os países do Leste estão integrados à União Europeia. Uns plenamente, outros com data marcada para adotar o euro e gozar de usufruto pleno das prerrogativas de sócios do clube, assim como das obrigações, estas últimas nem sempre de assimilação fácil (é o caso da resistência da Hungria e da Polônia às cotas imigratórias estabelecidas por Bruxelas). Mas como o poder cada dia se desloca mais para o Oriente, certo é que o grupo dos 16 resolveu acrescentar "Mais 1" à sua denominação e abriu espaços para que a diplomacia corporativa chinesa fizesse entrada triunfante.  

Nesse contexto, Bruxelas teme seriamente que a influência chinesa possa minar a coesão do bloco europeu em função dos laços estabelecidos entre Pequim e alguns desses países. Sob pretexto de querer estabelecer pontes em direção à UE, os chineses já investiram nos últimos 4 anos nada menos que US$ 15 bilhões na região. Destes, as tranches mais suculentas foram para a Bósnia, seguida pela República Tcheca, Romênia e Sérvia. Assim sendo, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Sigmar Gabriel, já declarou que se a Europa não desenvolver uma estratégia única com relação à China, esta poderá dividir a Europa. Certamente não é o fim doa "Ostpolitik" de Berlim ou Bruxelas. Mas o alerta é claro e procedente.   

Quanto a este escriba, eu já não nutria qualquer dúvida de que esse movimento estava em franco curso. Mais precisamente, desde quando vi um verdureiro chinês estabelecido no mercado central de Budapeste, um ícone da capital magiar. E, mais do que isso, falando húngaro com a clientela, uma língua tida como hermética, e só aplicável a insiders, a quem quer, efetivamente, se enfronhar no tecido da sociedade local. E isso tem acontecido em muitas cidades entre Sczeczin e Sofia, posso assegurar. Chame-se pelo nome que quiser, mas sugiro procurarmos algum neologismo para Neoimperialismo e "soft power". Os chineses ali já tomam a sopa pelas bordas. Ou deveria dizer o goulash?


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