Um minuto ao lado de Contardo Calligaris

No todo, ele é um amigo da humanidade no olhar clínico, porém empático

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Contardo Calligaris

Na terça-feira à noite fui ao lançamento do último livro do psicanalista Contardo Calligaris, na livraria Cultura, da Avenida Paulista. Gosto desses eventos. Sei bem como se sentem os escritores e, ademais, é bom purgar um tempo na fila de vez em quando para sentir na própria pele o quanto é aflitivo esperar que o autor termine de conversar, abraçar e se deixar fotografar ao lado de um fã mais entusiasmado, o que impede a fila de progredir. Por ocasião de meu próximo livro, vou ficar mais atento ao pormenor. Seja como for, é bom tratar de começar a escrevê-lo.

É curioso que, coincidentemente, estivesse na livraria por ocasião das noites de autógrafos de três colunistas da Folha de S. Paulo. O primeiro foi há algumas semanas e as luzes estavam sobre o filósofo Luiz Pondé. Para minha surpresa, o espaço estava lotado, o que só atestou que quem vem da Bahia não nasce, porém estreia. Quem foi mesmo o baiano que disse isso? Nizan, salvo engano. Na segunda-feira última, foi a vez de Vladimir Safatle, um colunista que vê conspiração contra os oprimidos em cada vírgula que escreve. Não é à toa que estava de preto, ar triste, um pouco isolado em sua dignidade, esta inegável. 

E na terça? Pois bem, Contardo Calligaris é um cidadão de charme. Não bastasse a origem peninsular, a ela se somam camadas de cidadania global, adquiridas em temporadas de estudo e clínica psicanalítica em Paris, Nova York e São Paulo. Eis do que fazer do perfil de um homem algo bastante promissor. Enquanto ele garatujava dedicatórias, observei-o detidamente. No cruzar das pernas, via-se um meridional-alpino de constituição saudável. Nos cabelos cuidadosamente revoltos, idem. Na atitude, um sujeito caloroso, embora treinado para a contenção. No todo, um amigo da humanidade no olhar clínico, porém empático. 

Chegada minha vez, fiz uma cara bonachona, talhada para essas ocasiões, e disse que tempo desses estivera numa exposição em Trieste, no Veneto italiano, e que o pintor também era um Calligaris. Contardo se disse do Piemonte, quase fronteira com a França, logo é um valdostano. Pensei em pedir que autografasse meu exemplar para um primo, também psicanalista, o que já seria um presente de aniversário para o próximo 7 de dezembro. Mas atribuir meu livro a um terceiro, quebraria um rapport em processo, e achei imprudente fazer isso, quase desonesto, por curta que fosse nossa interação.

Pois bem, dispúnhamos de um minuto. Na fila, eu lera o prólogo de "Hello, Brasil" e só as palavras introdutórias dariam margem a uma hora de conversa. Não escrevi eu próprio um bocado sobre o olhar estrangeiro e suas peculiaridades? Não fui eu mesmo estrangeiro em tantas culturas, mais até do que ele, embora sem suas ferramentas analíticas? Enquanto escrevia a dedicatória, de que constou um post scriptum em que louvou minha simpatia, ele avaliava de soslaio minha respiração, o ventre proeminente e o tanto que nos unia e separava. Será simplesmente um construto (está em moda) da imaginação?    

São muitas as paralelas que percorremos, não há dúvida. Como ele, também fui aprendendo a escrever à força do hábito de fazê-lo regularmente para jornais e revistas. A exemplo dele, também perdi certo frescor na retina para examinar padrões ditos estrangeiros porque sou um na França, outro na Itália, outro na Espanha, outro na Inglaterra, outro na Alemanha e assim por diante, dada a modelagem da língua e o que cada uma delas significou para mim. Em muita coisa, porém, ele já é mais brasileiro do que eu, pois assimilou a mania nacional de trazer criança para reunião de adulto, sem sequer avisar. Eu ainda peno. 

Enfim, apertei a mão de mais um amigo. Espero que "Hello, Brasil" agregue em instrumentos para que eu saiba antes de morrer a que mundo pertenci e quem eu fui. Sem resposta para isso, a vida terá sido vã, mera colagem de prazeres.


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