Chile, onde exportar importa

Há muito tempo que o país diversifica sua diplomacia comercial e deverá ter dezenas de acordos bilaterais

Por Fernando Dourado Filho, de Santiago (Chile)

Porto de Valparaiso, no Chile

Pode ser um velho cacoete profissional, mas o fato é que não resisto a compilar as estatísticas de exportação de um país, sempre que o visito. Aqui no Chile, destino que foi dos primeiros onde atuei profissionalmente, não poderia ser diferente. Como acontecia com o Peru e o Equador, o país andino também era grande exportador de farinha de peixe que, em 1990, contou tanto quanto a crescente venda de uva, ou seja, algo como U$ 400 milhões da época. Na década seguinte, já percebemos um movimento interessante. Isso porque a "commodity" barata saiu da pauta dos produtos mais importantes e deu lugar a US$ 1 bilhão de exportação de peixe, entre truta e salmão, em 2000. Para coroar esses esforços, o Chile exportou US$ 3,5 bilhões só deste último, ano passado, o que dá conta de uma evolução apreciável. Já as uvas da comparação inicial, perfizeram em 2016 aproximadamente US$ 1,5 bilhão.  

Outra escalada notável diz respeito aos vinhos. Depois das ações pioneiras da Concha y Toro e dos tempos heroicos em que pontificava o "Casillero del Diablo" (quem não lembra?), a garrafa mór dos tintos nacionais, os números se reconfiguraram já em 2000, quando o Chile exportou US$ 600 milhões. Acompanhei o movimento de prestigiosos "sommeliers" europeus que foram convidados para conhecer as vinícolas dos vales andinos e daqui voltaram encantados. Isso resultou em fato inusitado. Isso porque não são poucos os países europeus de enologia de tradição que propõem vinhos chilenos em seus cardápios. Daí que ano passado, em 2016, o vinho engarrafado bateu o recorde de US$ 1,5 bilhão, um crescimento que não dá o menor sinal de querer esmorecer. É claro, nada se compara ao cobre, que já bateu US$ 41 bilhões em 2010, e que, ano passado, se traduziu em quase US$ 30 bilhões. Mesmo assim, é muita uva, vinho e peixe. 

Domingo, 19 de novembro, os chilenos deverão reeleger Sebastián Piñera, o anteparo mais visível contra o obscurantismo populista. Pecadilhos do "tycoon" bem falante, ligados à compra de empresas falidas nos anos 1980, e que lhe teriam permitido pagar uma fração ínfima dos impostos devidos, não deverão macular uma candidatura tida por todos como vitoriosa, num país em que o voto não é obrigatório. Não deixa de ser milagroso, contudo, ver que a traumática pauta Pinochet saiu das manchetes e que o país se volta para o futuro, de olho espichado para o Pacífico, privilégio este de que não desfrutamos por aqui. Se Trump torpedeou o TPA, tampouco pegou o Chile desprevenido. Há muito tempo que o país diversifica sua diplomacia comercial e deverá ter, a essa altura, dezenas de acordos bilaterais, ao passo que aqui ainda engatinhamos, atrelados ao Mercosul e suas amarras de união aduaneira.   

De par com a diversificação do possível, o Chile atraiu ano passado quase 5 milhões só de viajantes sul-americanos. Nada mal para uma nesga de terra que corre em paralelo à Cordilheira dos Andes, com plataforma continental, vales e montanhas sujeitas a tremenda atividade sísmica. Nesse contexto, vale notar a estratégia de capação turística de alta gama. Tanto no Atacama, ao Norte, quanto em Punta Arenas, no extremo Sul, passando pelos lagos de Puerto Montt e pelas estações de esqui, hotéis e restaurantes oferecem serviços diferenciados, o que afugenta o turista de baixo poder aquisitivo, e atrai quem está disposto a bancar o valor que, inteligentemente, eles agregam em casa. Será sempre um prazer visitar o país-irmão e aprender com ele nos terrenos em que superou limitações de toda ordem. Tanto lá quanto cá, sempre poderemos fazer mais. Compete ao Estado ser virtuoso e prestar os bons serviços que deve à cidadania.

Oxalá o exemplo frutifique por todo o Continente.     

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