O apedrejamento de William Waack

Ele é tão racista quanto eu sou xiita. Ou seja, zero

Por Fernando Dourado Filho, de Valparaíso (Chile)

William Waack

Reza a lenda que o velho Roberto Marinho teria mandado um recado aos militares que tentaram enquadrar os esquerdistas das redações que comandava. A crermos na lenda, pontuou com autoridade: "De meus comunistas, cuido eu". E a "tigrada", como gosta de dizer Élio Gaspari, botou a viola no saco e parou de perturbar o sossego daquela gente de bem, acuada no exercício profissional opinativo. Em igual medida, o ucraniano Adolfo Bloch, cuja família sobrevivera a "pogroms" e perseguições cossacas, abriu os braços para receber jornalistas ameaçados pelo obscurantismo. Ivanildo Sampaio, um farol da imprensa pernambucana e nacional, contou dia desses nas páginas de "Será?" a acolhida que teve na Manchete, no Rio de Janeiro, no rescaldo da cobertura que fizera no Recife da morte do padre Henrique, e que lhe valera ameaças sinistras. Como sabemos, a largueza não é privilégio brasileiro. Da Argentina dos militares até a Rússia de Putin, passando pelo "Charlie Hebdo" e pelo "Le Canard Enchaîné", protege-se a prata da casa como precioso ativo, mesmo quando o terror invade a sede e mostra sua pior face.       

Mas algo de fundamental vem mudando no caráter dos homens em resposta aos poderes manipuladores das brigadas furibundas da Internet. Ora, a Globo, a outrora Vênus Platinada do Jardim Botânico, resolveu ignorar a estatura do fundador e, de cócoras, ateia fogo nas vestes de profissionais em apuros, e cede à sanha de denuncismos de rés-do-chão, impensáveis em outros tempos. Dia desses, todos devem estar lembrados, torpedeou José Mayer por conta de um episódio tido como trivial naquelas plagas. Ora, se o ator assediou uma colaboradora, como parece ter mesmo sido o caso, tivesse ela acorrido ao RH e meio caminho estaria andado para que o caso fosse sancionado com rigor. Mas não foi isso o que aconteceu. A emissora deu prova cabal de inabilidade, ou de perversidade, como se queira, e optou por canibalizá-lo. Entregou-o numa bandeja ao jornalismo que, a seu turno, o serviu em rede nacional, levando a espetacularização a paroxismos de gosto macabro. A persistir condutas punitivas dessa ordem, há de se esperar que as telenovelas abracem um dia os padrões puritanos que a prática propugna. Ou não?  

Agora chegou a vez desse simulacro de Macartismo acometer o jornalismo. Será William Waack catapultado para o Projac para que sua vida honrada vire novela? Ora, caros leitores, a Globo afastou-o por conta de uma alegada conduta ofensiva aos negros. Por ter dito, entredentes, uma patacoada que sai da boca até de Ministro do STF ao aludir a colegas, como disse Luís Roberto Barroso ao se referir a Joaquim Barbosa, como "um negro de primeira linha". Sou nordestino, vivo na cidade mais multiétnica do continente, já fui chamado de "baiano" mil vezes – sabendo da conotação pejorativa –, e nada aconteceu. Aliás, o que mais ouço é alusão a "programa de índio" em véspera de "dia de branco", ademais de "coisa de preto" em se tratando de condutas extravagantes, na linha do que professam Vampeta ou o "performer" Carlinhos Brown. Até judeus usam o verbo "judiar", candidamente, e os orientais sorriem ao ouvir o dito paulista de que "para mim é tudo japonês", alusivo à falta e individualidade de uma gente coletiva até nas feições. E quantos não dizem "turco ladrão" na Rua 25 de Março, entre sorrisos e gracejos?    

Dessa feita, talvez para limar acertos internos, ciúmes inconfessos e ressentimentos guardados, querem imolar o jornalista William Waack, um sexagenário pardo, de sangue libanês, que ama falar alemão, cuja exuberância cultural resulta antipática para uns, elitista para outros, embora respeitável para todos. Dono de credenciais que honrariam qualquer redação no mundo, Waack é um luxo a que o Brasil precisa continuar se dando. Na verdade, se a Globo se curvar ao poder das redes sociais e aderir ao efeito manada dos raivosos, esvai-se o padrão de excelência do fundador, que contemplava não somente o esmero das produções, mas a altivez de tomar posições a contracorrente. De pouco servirá que ela venha a público dentro de 10 anos para se desculpar do erro cometido, como já fez a propósito da edição maliciosa de debates presidenciais e outros pecadilhos. Em tempo: quem se sentir burro diante do brilho alheio, que vá estudar. Apedrejar quem ousou pairar acima da mediocridade é um recurso vil. Se tudo vale pela audiência, passa da hora de estancar a histeria que ameaça o pacto brasileiro de convivência. 

O caso de William Waack se presta a marcar uma virada em tanta pieguice. Ele é tão racista quanto eu sou xiita. Ou seja, zero.

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comentarios




Carlos Henrique de Oliveira

Acho legal que os racistas estruturais, os que se escondem, saem dos armários e porões para defender seus pares. #WaackRacista. #ForaWaack

Joaquim Moura

Prezado Carlos Henrique de Oliveira, ao que parece você não entendeu nada do artigo, que justamente denuncia esse macartismo, como o autor define muito bem. Preste atenção para não contribuir para cultivar ainda mais burrice no Brasil.

Giovanni

"Ora, se o ator assediou uma colaboradora, como parece ter mesmo sido o caso, tivesse ela acorrido ao RH e meio caminho estaria andado para que o caso fosse sancionado com rigor." Esqueceu o articulista no Chile que nosso problema aqui é exatamente a falta de rigor entre os "honrados" e os "não hontados", por isso Waack acaba sendo atacado dessa forma. Então não usa essa solução idealista aí de cima pra brasileiro qeu a gente sabe como funciona aqui.

Helena Ortiz

Presumo que o William Waack deva ser um grande amigo seu. Só assim é compreensível uma defesa tão ardorosa. Mas que o coloca numa situação difícil. Não é só o quesito racista que o desabona. Temos também WikiLeaks.

Andrey

O que eu acho incoerente é tratar como verdade, seja com o jornalista Waack ou no todo, que tudo está normal, e que deve continuar assim pela praxis operante. A atitude da emissora seria considerada normal até mesmo em alguns países, mas ditos vanguardistas da liberdade de expressão, são fidedignos ao valor comercial que os formadores de opinião lhe conferem. É preciso ouvir o que o próprio jornalista tem a dizer. Teria sido um dia ruim? talvez seja o dia a dia da pessoa e um fora tira todo o lado profissional na sarjeta, uma extroversão fora de contexto pode não condizer com a realidade de seus princípios. Mas no Brasil quem se interessa por princípios?

Tiago Seratti

Concordo. É uma pena que tão poucos entenderão a mensagem do texto como demonstra os comentários. Li duas vezes para que o entendimento fosse completo e sua visão do caso William Waack na atual conjuntura da sandice do politicamente correto e sua "amiga" chamada hipocrisia é simplesmente brilhante.

José Benedito

Realmente impressionante a desenvoltura como se os racistas se defendem so falta o ator do post imitando FHC dizer que William tem um pé na senzala

Irene Castro

Quem nunca errou, que atire a primeira pedra. Num contexto elitista, até que se prove o contrário, quem pode mais chora menos. Se os erros eleitos não se tornarem públicos pelo anonimato das redes sociais, jamais ficaremos sabendo e a "Globo" tudo fará para mantê-los. Quando tais fatos acontecem, ela procede como Pilatos: lava as mãos e os joga às feras sem dó e sem o mínimo de piedade. Essa é a saga do capital: ser autofágico.

Lucas

Já sei uma das revistas que não renovarei a assinatura...

Cristina Guimarães

O Brasil está tão pobre de incompetentes e agora estão querendo tirar um grande competente jornalista cearense da Globo.. Me poupe desta hipocrisia de brasileiros que se acham perfeitos. Atire a primeira pedra que nunca fez piadinhas ou chacotas com negros, nordestinos, japoneses, índios etc. Sofri tanta chacota morando em Salvador (BA). Volta, William...

Francisco Carlos de Araujo

Lamentável. Cortaram o jornalista mais interessante da Globo e da GloboNews. A TV ficou mais empobrecida intelectualmente.

Lucia Carlos de Andrade

#voltawilliamwaack

Luiz Claudio

Somos uma nação fadada a ser habitada por ingênuos... Não se pode criminalizar aquilo que é dito no particular, tomando-o como público, exceto por burrice ou interesse sorrateiro. O jornalista disse algo desnecessário, entre dentes, e ao parceiro na entrevista, antes da mesma começar. Quem lá no seu intimo, no privado nunca disse coisa semelhante ou pior? "Aquele que não tem pecado, que atire a primeira pedra". Palavras simples e sábias. Deplorável que as pessoas prefiram a execração em situações como essa.

André

Infelizmente estamos vivendo em tempos de idiotas frágeis que a afetam com tudo, devido aí fraqueza de espírito e sua falta de personalidade, buscando a todo momento se vitimizar perante "as mazelas" para justificar seus fracassos passados, presentes e futuros. Quem nunca fez uma piada ou teve uma atitude dita "racista". Sou filho de pai baiano e mãe do interior, pobres, da periferia e afrodescendente, além disso tinha cabelo ruim e a beleza também não bateu a minha porta, já fui chamado de tudo quanto é coisa nessa vida, era tímido, não tinha namoradas, poucos amigos e era um dos últimos a ser escolhido no futebol, mesmo jogando bem, mas eu sempre soube diferenciar o racismo verdadeiro, aquele proferido com ódio, do racismo de brincadeira. Nessa linha, posso afirmar que sequer 5% foi racismo verdadeiro. O grande problema mesmo é que vivemos no período dos intelectuais das redes sociais que sequer finalizaram a leitura de meia dúzia de livros em toda suas medíocres vidas. O verdadeiro preconceito é a inveja, que busca destruir aqueles que conseguem o que você não é capaz!

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