A Europa do Leste no Brasil

É hora de palmilharmos com pragmatismo as paisagens outrora brumosas que hibernaram por trás da cortina de Churchill

Por Fernando Dourado Filho, de Santiago (Chile)

Vista de Praga

Foi no Westminster College de Fulton, Missouri, que Winston Churchill desenhou para a História o quadro que emergia dos escombros da Segunda Guerra Mundial. Com a força da imagem que lhe era cara, disse da nova ordem: "De Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente". E ilustrou o cenário de apreensão imediata com uma passagem menos conhecida: "Atrás dessa linha, estão todas as capitais dos antigos Estados da Europa Central e Oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sofia; todas essas cidades famosas e as populações em torno delas estão no que devo chamar de esfera soviética e todas estão sujeitas, de uma forma ou outra, não somente à sua influência mas também a fortes, e em certos casos crescentes, medidas de controle emitidas desde Moscou". Efetivamente, por um período que se estenderia por mais de quatro décadas, o Pacto de Varsóvia, no campo militar, e a Comecon, no plano econômico, condenariam essa parte do mundo a viver numa bolha de autossuficiência, onde o dirigismo estatal tentou substituir a economia de mercado, e o centralismo ideológico, ditado pelo Kremlin, esmagou liberdades caras ao mundo europeu de até então, a saber, as de livre expressão, locomoção, criação artística e formulação intelectual. 

Assim sendo, ainda no rescaldo da Revolução de Outubro de 1917, velhas aspirações russas de buscar saída para águas não congeláveis, ditaram movimentos expansionistas em direção à Ásia Central e ao Cáucaso, ademais das Repúblicas Bálticas – as pequeninas Estônia, Letônia e Lituânia. Com o decurso dos anos, as tensões em torno da Europa Central, mormente no controle de Berlim, adensaram o que viria a ser chamada de Guerra Fria. A repressão implacável aos movimentos libertários na Hungria, em 1956, e na Tcheco-Eslováquia, em 1968, demonstraram, em boa medida, a determinação de Moscou em não tolerar fraturas no bloco, exceção feita à Iugoslávia, onde Tito impôs uma política independente, dadas as características dos Bálcãs. O que não impediria, já nos anos 1990, morto o Marechal e esfacelada a URSS, que eclodissem faxinas étnicas, reeditando o padrão de violência verificável no começo do século, quando Sarajevo, na Bósnia-Herzegovina, presenciou o momento seminal da Primeira Guerra. Sintomático, contudo, de que o equilíbrio soviético padecia de fragilidades estruturais, foi o fato de que Moscou acusou o golpe das marretadas que derrubaram o Muro de Berlim, no bojo do insucesso da campanha militar no Afeganistão. O epílogo de 1917 foi coreografado pelos passos trôpegos de Ieltsin, cuja tibieza abriu caminho para o neo-czarismo de Putin. E assim se passaram 100 anos. 

Quem visitou as capitais aludidas por Churchill nos anos sombrios, nelas viu a reprodução dos ícones de Moscou, ou de São Petersburgo, consoante diferentes escalas. Em todas elas, contudo, assomavam os chamados prédios estalinistas, construções gigantescas que reduziam o cidadão à insignificância intentada, e as conversas com estrangeiros eram fortuitas, jamais encorajadas, porque expunham o interlocutor local a uma aura de suspeição. Se a Stasi, da República Democrática Alemã, e a Securitate, da Romênia, emulavam as práticas da KGB russa, e sujeitavam as artes a uma censura implacável, sempre que estas se manifestassem em desacordo com os cânones do "realismo socialista", há de se admitir que não foram poucos os progressos alcançados na educação. Nesse contexto, à margem das disfunções emocionais que resvalavam para o alcoolismo e o medo, a formação escolar de base criou excelentes linguistas, músicos de classe mundial, atletas de alta performance e uma intelligentsia que, uma vez apartada das patranhas ideológicas que ela mesma desdenhava, deu contribuições relevantes à física, química e matemática. Se o regime se valeu do agregado de seu aporte para efeitos de propaganda, essa é outra história. E, fazendo como eles próprios, é hora de projetarmos o futuro.      

É olhando para esse quadro que o Brasil precisa desenvolver uma leitura própria do potencial econômico que subjaz nessa ampla paisagem física e humana. Em nosso país, temos a ventura de abrigar inúmeros focos de descendentes de primeira geração de quase todos os povos acima citados. E não são poucos os que recriaram os laços que uniam seus ancestrais a países como a Romênia, Hungria, Polônia, República Tcheca (na foto, Praga), Croácia, Lituânia, Bulgária, Sérvia, Letônia e Ucrânia, para nos atermos aos mais representativos. Temos em São Paulo, um savoir faire intercultural que nos remete às paisagens revitalizadas desses países, inclusive os do Cáucaso, de que destacamos a pujante diáspora armênia. É hora de começarmos a congregar as energias aqui latentes, e promover oficinas e rodadas de negócios nos mais variados domínios, como forma de acelerarmos o intercâmbio cultural e comercial com a Europa do Leste. Se havia justas reticências com respeito à adaptabilidade de muitos desses povos à chamada economia de mercado, quase 30 anos de mudança de regime evidenciam que é grande o sucesso aferido pela Ostpolitik de alguns dos grandes atores europeus nessa parte do mundo. É hora de palmilharmos com pragmatismo as paisagens outrora brumosas que hibernaram por trás da cortina de Churchill. O desafio brasileiro não pode esperar.   


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