O uzbeque

Fomos parar em Borough Park, onde deve ter transitado o famigerado Saipov, cuja sanha roubou a vida dos argentinos

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Vista do Uzbequistão

Não sei quantos pernambucanos já foram ao Uzbequistão (foto), na Ásia Central. Para apontar um, além deste escriba, Mauro Chwarts esteve lá recentemente, e li os relatos emocionados que fez em redes sociais sobre os judeus das míticas cidades de Boukhara e Samarkand, duas das joias da Rota da Seda. De minha parte, já fui negociar línter em Tashkent e passei dias no Vale de Fergana, suando bicas na faixa espremida entre os rios Amu Darya e Syr Darya, lá onde Stálin ordenou que se plantasse algodão em larga escala, nem que para isso drenassem o Mar de Aral, e se criasse uma catástrofe ambiental. Conseguiu. Consolei-me de tanta desdita, me regalando com os melões mais suculentos da Terra. 

Digo isso a propósito do pobre diabo uzbeque que arremessou o carro sobre os ciclistas de Nova York. Lendo sobre ele, rememorei aquela manhã de agosto em Moscou, em 1991, quando os ânimos estavam conflagrados e vi Bóris Iéltsin subir num tanque na frente do Parlamento. Na mesma noite, embarquei no aeroporto de Domodedovo para Tashkent, num Ilyushin bojudo, de asas vergadas. Durante o voo interminável, raro era o homem que não estava embriagado e louco seria quem botasse os pés no banheiro. Na alfândega uzbeque, operava-se ampla oferta de pacotes de cigarro em troca de uma fiscalização benevolente, que liberasse sem delongas as bugigangas trazidas da claudicante capital do Império.    

Nos últimos anos, pouco estive com uzbeques. Mas sempre lhes arranquei um dedo de prosa ao vê-los coletar bagagem em Sheremetievo, varrendo as valas da Rua Arbat, em Moscou, ou ao volante dos ônibus de São Petersburgo, entre o Almirantado e o cemitério próximo à Nievski Propekt, onde está o túmulo de Dostoiévski. Mas também em Nova York, e da forma mais acidental. Depois de visitar o Jardim Botânico do Brooklyn, a caminho do lendário restaurante Peter Luger, nos perdemos. E fomos parar em Borough Park, onde vi inconfundíveis bandeiras de lua crescente e doze estrelas, à porta de lojinhas. Por ali deve ter transitado o famigerado Saipov, cuja sanha roubou, entre outras, a vida dos argentinos de Rosário. Assim é o mundo.   


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