Eu e Lenine na Praça Vermelha

Uma torrente de emoção tomou conta de mim naquele momento

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Vista da Praça Vermelha, em Moscou

Cheguei a Moscou no outono, mas não saberia precisar de que ano da década de 1980. Àquela altura, já visitara algumas cidades do Leste da Europa desde a década anterior e, na verdade, ansiava em conhecer a capital do Império, a cidade mítica que presidia sobre oito fusos horários, da fronteira com a Polônia até as cercanias do Mar do Japão. Quiseram as circunstâncias que a viagem fosse decidida quando eu estava na Ásia e, para tanto, o escritório de São Paulo providenciou um visto especial em Brasília. Foi assim que tomei um voo da Aeroflot em Narita, perto de Tóquio, e voei por sobre a Sibéria por muitas horas, purgando à bordo, o desconforto de um avião rústico, em cuja cabine reinava um frio digno das paisagens que sobrevoávamos. Para completar o quadro, trazia de Taiwan um jogo completo de tacos de golfe que ganhara de um amigo, o que só somou à minha desdita com a alfândega. 

Entre o aeroporto e o hotel, acompanhei a desolação daquela paisagem sem grandes encantos, ainda adormecida na modorra dos anos socialistas. Isso não me impediu de sentir um frêmito especial à medida que nos aproximávamos do centro nevrálgico e divisávamos ônibus elétricos antiquados, carros idem, e uma gente que parecia transfixada nas calçadas, como se estivesse à espera de que as filas intermináveis andassem um dia. Foi então que o taxista olhou pelo retrovisor, reduziu a marcha e, de um ângulo que um dia me seria tão familiar quando uma cédula de 10 rublos, apontou à minha direita e disse: "A Praça Vermelha". Mais precisamente, "Krasnaia Ploshed". Então uma torrente de emoção tomou conta de mim naquele momento. Lembrei de minha tia Alice que acreditara até o fim nos méritos do socialismo e num mundo fraterno. O que ela sentiria se um dia tivesse tido a ventura de viver momento parecido?

No hotel, creio que era aguardado por alguém do Itamaraty, mas logo me desvencilhei das formalidades para sair dali e caminhar pelas ruas onde as folhas secas estendiam um tapete ocre, logo à porta das estações de metrô bem protegidas. Com a ajuda de um pequeno mapa, fui me situando. Em dado momento, quando o céu claro tornou os ventos quase gelados para quem vinha de um outono ameno no Oriente, percebi que estava só naquela praça imensa, pulsante de História. Foi só então que divisei o mausoléu de Lenine e os dois guardas que, impávidos, estacavam por trás das correntes pesadas que atravessavam o granito do chão. Pequenos buquês figuravam abaixo do nome do líder máximo. Lá dentro, jazia o corpo embalsamado que um dia eu veria de perto. Então, paradoxalmente, pensei no cais da Rua da Aurora, no Recife, e nas minhas raízes. Passara parte da juventude vendo os embates ideológicos entre esquerda e centro, já que o Brasil não admitia a direita até então. Pensei em masmorras, quarteis, panfletos e cassetetes.   

E então me deu uma vontade de rir, que logo refreei diante da sisudez dos guardas, imaginando que ali mesmo dormia o sono eterno o pivô de todas aquelas desavenças. O mundo era mesmo um palco do nonsense. Castigado pelo fuso horário, devo ter dormido bem aquela primeira noite moscovita. 


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