Sobre pontes e pinguelas

Ou: as transformações de curto e longo prazos em Porto Alegre

Por André D´Angelo

Vista do Mercado Público, no centro de Porto Alegre

Mudanças organizacionais não são nem um pouco fáceis de empreender, menos ainda quando profundas. Que dirá mudanças que afetam uma cidade inteira.

Este é o tamanho do desafio que o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr., dispôs-se a enfrentar. Não escondeu tal intenção durante a campanha eleitoral, ano passado, nem ao longo destes primeiros dez meses de mandato. O que merece discussão é o método pelo qual o alcaide da capital gaúcha (na foto, o Mercado Público, um dos ícones da cidade) tem se valido para alcançar aquilo a que se propõe. 

Segundo nota publicada na Zero Hora na última quinta-feira, 2 (aqui, para assinantes), Marchezan Jr. tem encomendado a seus secretários diagnósticos amplos da situação de cada pasta, para, a partir deles, definir seu plano de ação. Com isso, por mais de uma vez optou por abortar iniciativas de curto prazo, o que desagradou parte de sua equipe, levando a baixas no secretariado. 

O prefeito tem razão?

Em parte. Bons gestores, inclusive os públicos, destacam-se por uma ideia de direção, de caminho a seguir, articulada através de diferentes medidas. Estas podem ser julgadas por sua coerência com o norte estabelecido e a capacidade de se reforçarem mutuamente, contribuindo para a concretização de um objetivo. A perspectiva de longo prazo, claro, faz parte dessa lógica. Salvo em casos de turnaround, em que todas as decisões são “para ontem”, cabe ao CEO pensar o futuro da organização. 

Considerando que políticas públicas duradouras, capazes de ultrapassar o horizonte dos quatros anos de mandato, são uma carência histórica da administração pública brasileira, a preocupação de Marchezan Jr. em primeiro analisar de maneira abrangente o cenário, para só então desenhar soluções consistentes e apropriadas, é digna de aplauso.  

Porém, mudanças organizacionais são um pouco diferentes – e especialmente diferentes quando envolvem uma municipalidade inteira. Transformações envolvem presente e futuro simultaneamente. E pode-se dizer que o primeiro ajuda a pavimentar o caminho para o segundo. 

Explico.

Para demonstrar comprometimento com a mudança, motivar a equipe e reduzir o risco de sabotagens e retrocessos, medidas mais simples e fáceis de colocar em prática podem ser implementadas imediatamente. Mesmo que não sejam lá as mais relevantes, sua realização ajuda a exibir interna e externamente a placa de “estamos em obras” e, assim, ganhar apoio para o que vem a seguir – as alterações mais profundas e complicadas de concretizar. 

Numa democracia, essa sinalização é especialmente importante porque a opinião pública não costuma oferecer trégua a um governante. Mal assumiu, um prefeito, governador ou presidente passa a ser refém de suas promessas de campanha e da impaciência de seus eleitores e opositores. 

Ao que sugere a nota de ZH, Marchezan Jr. entendeu perfeitamente a necessidade de construir uma bem estruturada ponte para o futuro de Porto Alegre, mas esqueceu-se de permitir que seus secretários improvisem pequenas pinguelas para o dia a dia da capital. O resultado, pelo visto, desapontou alguns integrantes de sua equipe e privou a cidade de iniciativas que, se não eram as ideais e/ou sequer teriam continuidade, ao menos poderiam gerar algum benefício imediato – bem como atenuar críticas e narizes torcidos. A ideia de movimento é importante para uma administração pública, principalmente em início de mandato. As coisas precisam parecer que estão acontecendo, saindo dos gabinetes e ganhando vida nas ruas sob a forma de fatos concretos.

 Se o prefeito porto-alegrense se der conta disso, provavelmente terá uma trajetória menos acidentada até chegar o momento de colocar em prática as grandes mudanças que a capital – e em especial seus eleitores, como eu – esperam e merecem.

leia também

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: