A cortina de bambu

É opção de cada um amar a China ou não. Mas ninguém pode ficar indiferente ao colosso asiático e seus códigos

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Vista da China

Visitando a China desde o final dos anos 1980, pude construir uma visão própria dos fatos que exercem fascínio no viajante que vem de fora, e daqueles que adensam as más impressões. É claro que quem lá chega com disposição positiva no coração, tenderá a ver a realidade de forma mais benevolente. Mesmo diante dos banheiros imundos do interior do país, dirá que é notável o progresso que eles fizeram, pois tempo houve em que até as instalações mais precárias eram puro luxo. Quem lá aporta meio travado – tal como pode acontecer em todo lugar -– poderá ver nos escorpiões fritos que se comem e no sangue de cobra que se bebe, indícios de barbárie absoluta. Interessante é que os chineses não atribuem à opinião estrangeira a importância que outros povos lhe dão. E essa atitude talvez esteja ancorada na mentalidade ancestral dos habitantes do "Império do Meio".

Isso dito, podemos concluir que os chineses padecem de uma espécie de complexo de superioridade? Sim, é uma forma de dizer, levando em conta que são etnocêntricos empedernidos, à altura do povo mais numeroso da Terra. Para ilustrar este fato, posso dar um exemplo de muitos. Quando a expedição de Lorde Macartney chegou a Macau, em 1793, o mandarim da alfândega se recusou a subir no navio para inspecioná-la, o que acarretou um longo contratempo. E por quê? Pela simples razão que, sendo a nau demasiado alta para o padrão do cais de juncos, como poderia o burocrata subir a bordo, se isso implicava sujeitar-se a olhar para cima, onde pontificava o enviado dos "bárbaros de nariz grande"? Isso não impediu que os chineses prodigalizassem os visitantes com a exuberância que lhes é própria. E fizeram subir a bordo 20 novilhos, uma centena de porcos e ovelhas, outra de patos e dezenas de sacos de farinha.  

Novo imbróglio eclodiu quando os ditames da etiqueta exigiam que o Embaixador descrevesse os valiosos presentes que trazia de George III para Qianlong como "meras bugigangas de nosso pobre país". Ora, como desqualificar com semelhante tom o precioso acervo artístico e científico de 590 peças catalogadas de que era emissário? Nesse contexto, é simplesmente hilária a carta que o Imperador endereçou de volta ao monarca, onde se apesenta como único emissário na Terra da vontade divina e recusa, sem qualquer cerimônia, o pedido de que o Reino Unido passasse a contar com um representante domiciliado na capital. Alegando que não poderia abrir exceções, tudo na sua atitude traduzia profundo desprezo pelo mundo externo à China. Fato evidenciado por uma curiosidade que atravessou a História: a China simplesmente nunca achou relevante ter um ministro de relações exteriores. Que importância tinha o que se passava para além de sua grande muralha?   

Nesse contexto, os ritos que consagraram o Premiê Xi Pingling, semana passada, ecoam uma visão de mundo milenar, em que a tradição reforça a liturgia imperial. É opção de cada um amar a China ou não. Mas ninguém pode ficar indiferente ao colosso asiático e seus intrincados códigos. Decifrá-los é obra para uma vida. Quanto mais os aprendemos, mais parece crescer nossa ignorância. Mas à custa de fazer este esforço, brota uma profunda admiração por essa civilização sem paralelo. E, no fundo do coração, lhe perdoamos todas as extravagâncias e pecados.


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