La Paillote: surpresa na tarde paulistana

As energias que a criaram a cidade estão latentes em cada esquina. E nelas, ainda temos muitas enciclopédias vivas

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Vista da cidade de São Paulo (SP)

No dia 29 de outubro, quando a tarde domingueira chegava ao fim, peguei um táxi no aeroporto de Congonhas e pedi ao motorista que tocasse para casa. Estava cansado e queria ler um par de horas antes de dormir. Como sempre faço, memorizei a matrícula do carro (5582-2000) e dei uma olhada no telefone para ver as mensagens mais urgentes. Mas algo na voz daquele homem me chamou a atenção. Não será que o conhecia de algum lugar? Bastou um minuto de conversa para matar a charada. Era João de Deus, o cearense elegante que foi durante 23 anos uma relíquia viva do francês "La Paillote", restaurante do distante Ipiranga, endereço de comensais ilustres do Brasil e do mundo por décadas. 

João está aposentado há cinco anos e virou taxista. O velho Roger, um francês que tinha fama de irascível, já faleceu há anos e os filhos não souberam tocar a casa de 42 lugares. Quando cheguei a São Paulo, em 1981, era um dos poucos três estrelas do guia mais confiável da época, que era o "Quatro Rodas". Fazia companhia ao Freddy, Marcel, Le Coq Hardy, La Casserole e La Cuisine du Soleil, para nos atermos aos franceses. Famoso pelos Camarões à Provençal – João disse que vinham de Santa Catarina e se precisava de um quilo para fazer dois pratos –, eu adorava jantar lá aos sábados, passando ao lado do Museu do Ipiranga, o que sempre surpreendia meus convidados. 

João de Deus, com a simpatia de um homem realizado, contou que antes da inauguração da Rodovia Imigrantes, todo o tráfego de São Paulo para a Baixada Santista tinha de transitar pela Avenida Nazaré, para acessar a Anchieta. Ademais, os altos executivos das montadoras do ABC, tinham no "La Paillote" um ancoradouro de qualidade, bancado pela pessoa jurídica. Longe de ser barato, ninguém duvidava que a relação custo-benefício se pagava. Recordamos dezenas de frequentadores e muitos nomes evocaram saudades genuínas em nossos corações. Rever João de Deus, prosear com um homem de sua classe e simpatia, deu cor ao fim de tarde do domingo. No destino, ficamos parados na calçada proseando. Quero revê-lo, isso é certo. 

Ao passar pela Rua Estados Unidos, ele apontou a Pamplona e disse que ali tivera seu primeiro emprego, num restaurante do Eldorado, quando este pertencia à família Veríssimo. "Passei um ano lavando prato". De lá sairia para uma carreira que dignificou a profissão de garçom, o que o eleva à categoria dos profissionais lendários do ramo como Ático, hoje no Parigi aos domingos; e Manuel Beato, o "sommelier" que revolucionou a profissão, e que está há mais de 20 anos no Fasano. Quem quiser um taxista de classe, simpatia e vasto repertório, procure João de Deus. Guardei o telefone dele para os momentos em que, mais do que um motorista, eu precisar de um amigo para circular nessa cidade de tantas surpresas. 

Isso é São Paulo. As energias que a criaram estão latentes em cada esquina. E nelas, ainda temos muitas enciclopédias vivas. Basta descobri-las.


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comentarios




Mauro Daffre

Fernando, que saudades do La Paillote, do camarão a provençal e do João de Deus. Eu nasci e morei no Ipiranga por muitos anos. Fui tantas vezes ao restaurante e após muita insistência consegui entrar na cozinha e ver de olhadela como preparavam o camarão. Hoje mato as saudades do camarão, pois vou ao Ceasa, os compro frescos e faço em casa, fazendo a felicidade dos meus filhos que estiveram por lá também. Recordar é viver!

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