O bom exemplo argentino

Um efeito colateral salutar para o Brasil seria que a Argentina surfasse as boas ondas que a aguardam

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Casa Rosada, sede do governo argentino, em Buenos Aires

Bons ventos sopraram do Sul no último fim de semana. A vitória da coalizão "Mudemos", do Presidente Macri, atestou que os argentinos estão entendendo que as políticas gradualistas ainda têm o seu lugar e que os sacrifícios são suportáveis desde que se tenha uma ideia de futuro claramente compartilhada. Nesse contexto, abre-se uma perspectiva concreta de reeleição do atual mandatário dentro de dois anos, o que poderá assinalar um duro golpe no populismo. Muito embora as práticas de país a país obedeçam também a idiossincrasias locais, bem sabemos que os exemplos frutificam e, muitas vezes, assinalam tendências gerais. Dessa forma, Brasil, Colômbia e México poderão se mirar em nosso vizinho. Uma Argentina estável fortaleceria essa parte do continente e ativaria sinergias que nem sempre foram óbvias para ambos os países, especialmente do lado de lá do Prata.

Um efeito colateral salutar para o Brasil seria que a Argentina surfasse as boas ondas que a aguardam e também atuasse com maior desenvoltura no cenário global, a exemplo do que já vem fazendo o Chile há muitos anos. Longe de querer que nossas complementariedades fiquem em segundo plano, vejo benefícios para ambos num "casamento aberto". Esse arranjo se traduziria na chegada de novos parceiros comerciais para o bloco e na redução de uma certa neurastenia que vez por outra trouxe ruídos ao casamento, evidenciado por uma pungente guerra fiscal. Se tal distúrbio não é incomum entre vizinhos, percebe-se uma integração muito modesta entre as economias face ao que poderia ser. Se no passado, certo distanciamento era atribuído à disputa por posições hegemônicas, tema caro a governos militares, isso hoje já perdeu todo sentido. Por outro lado, prevalece certo estranhamento intercultural. 

Embora seja muito maior o número de brasileiros que falem castelhano do que o de argentinos que falem português – tanto em termos absolutos como relativos –, ainda estamos reféns de alguns estereótipos que sabotam uma cooperação mais abrangente. Aos olhos da média dos dirigentes brasileiros, os argentinos mudam de posição segundo as circunstâncias lhes favoreçam mais ou menos, o que lhes reforça a imagem de milongueiros e canastrões. Alguns aspectos da vida argentina ainda são nitidamente provincianos quando comparados com nosso padrão básico. Serviços bancários e infraestrutura precária não condizem com um povo cujo nível médio de educação é superior ao nosso. Seja como for, uma Argentina virtuosa representa a renovação de oportunidades entre gêmeos. Se Brasília não interpretar os sinais em tempo, São Paulo poderia abrir um canal de interlocução paralelo com a Casa Rosada.  


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