Cara de rico

Isso é a pior coisa do mundo, pois pagava-se todo o ônus de ser um deles, sem integrar o time

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho conta a história de um amigo que só tem cara de rico, mas não é

"Eu queria viver como um homem pobre, mas com muito dinheiro" (Pablo Picasso)


Nunca fui amigo próximo do ex-deputado Ricardo Fiúza, de Pernambuco, falecido em 2005. Mas o via ocasionalmente na praia de Ponta de Serrambi, litoral sul do Estado, que ambos frequentávamos. Em dado momento da vida, ele se viu enredado no chamado Escândalo do Orçamento, uma ruidosa CPI que varreu o cenário do Legislativo, protagonizada por João Alves, então deputado baiano que, como bem sabemos, tinha um pendor todo especial para ganhar em todas as loterias federais. Segundo ele, por obra e graça de Nosso Senhor do Bonfim. Pois bem, arguido sobre seu patrimônio, Fiúza precisou explicar reiteradamente que, apesar dos bastos bigodes de Joaquim Nabuco e dos ares de califa abonado, seu patrimônio estava longe de notório. Era importante na cidade de Gravatá, no Agreste, onde tinha uma fazenda com gado leiteiro. No Recife, sequer se destacaria. Em São Paulo, então, seria tido por homem de classe média. Em Palm Beach, Flórida, dividiria a mesa com encanadores hispânicos. Para concluir o raciocínio, reiterou que a pior coisa do mundo era ter "cara de rico". Isso porque pagava-se todo o ônus de ser um deles, sem integrar o time. 

Esse episódio me veio a propósito do agradável encontro que tive com um velho amigo, no Santo Grão, da Rua Oscar Freire, aqui em São Paulo. Os anos não o castigaram tanto quanto a mim, pelo contrário. Elegante e esguio, adentrou o recinto com o garbo de um toureiro. Segundo me contou, vinha de uma rodada de reuniões no elegante hotel Emiliano, quase em frente de onde estávamos. Tão logo saímos das reminiscências de praxe, começamos a destrinchar o delicado capítulo chamado Brasil. Admitindo que os negócios começavam a retomar, disse contudo que sua situação pessoal não era das melhores. Se não fechasse um ou dois contratos até dezembro, era possível que começasse 2018 em outro endereço, o que valia dizer que fecharia a empresa. Diante de minha expressão incrédula, ele rebateu como se estivesse se antecipando à indagação de muitos: "As pessoas me veem com sapatos Zegna, gravata Hermès e, vez por outra, em colunas sociais. Outras dão uma olhada no Facebook e se deixam impressionar pelos cachorros e pela casa. Resultado: na hora de cobrar por um serviço, querem que eu o faça de graça. É infernal". 

Não pude conter uma boa gargalhada. Para botar lenha na fogueira, acrescentei: "Mas eu acho que faria o mesmo julgamento, cara. Você com essa estampa toda e sua vida de alta sociedade, termina por intimidar meio mundo". Então ele sorriu com o brilho dos velhos tempos: "Mas que alternativa me resta, rapaz? Não me vejo aos quase 70 anos frequentando botequim de terceira nem circulando por aí vestindo moleton. Quando eu era jovem, dizia-se de gente como eu que ela tinha tido berço. Hoje isso é quase um insulto. Estou naufragando. Todo ano vou ao enterro de um colega de turma. O comando das empresas dos velhos clientes passou para a segunda geração e tenho dificuldade em conversar com essa meninada. Nas ocasiões em que minha modesta competência não tem rivais, pois bem, então todo mundo recua e quer que eu faça benemerência. Até minha mulher. Não sei mais o que fazer". Quando o polo se inverteu e ele perguntou como eu vinha levando a vida de escritor, aproveitei a deixa para consolá-lo. "Posso não ter mais cara de rico, mas também sofro. João Ubaldo já dizia que no Brasil escritor tem fama de milionário".   

Para reforçar o argumento, e continuar me solidarizando com seu momento, lembrei das visitas que as altas instâncias do Rio de Janeiro faziam a Ruy Barbosa, em busca de pareceres jurídicos. Empolgado com o ofício, o mestre exsudava saber e esquecia de cobrar, como é comum à maioria dos intelectuais. Todos davam-no como abastado, como se tanto conhecimento tivesse o condão de abastecer a casa e alimentar as três filhas. Sabendo disso, findas as consultas, D. Maria Augusta, a esposa da "Águia de Haia", acompanhava os visitantes à porta e lhes agradecia o prestígio de forma nada sutil. "Acertaram os honorários? Não? Então volte lá e converse com ele, por gentileza. Se me permite lembrá-lo, queria que soubesse que o Conselheiro também come". Foi nessa toada que me despedi de meu amigo. Por certo que o diálogo pode ter soado surreal, levando em conta quem ele já foi. Quando o conheci, já integrava dois dos melhores conselhos de administração do país. No dia seguinte ao nosso encontro, mandei-lhe as coordenadas de um consultor de carreiras. O medo que dá é que este queira lhe cobrar o dobro por conta da tal cara de rico.     

Mas esta já seria outra história.


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