Entre a glória e a vergonha

Se quiser entender talvez a grande catástrofe que foi a construção de Brasília, Mario Rosa há de ser referido

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Mario Rosa

"Você precisa conhecer o Mario Rosa. É a conversa mais divertida de Brasília. Quando vier aqui, vamos tomar um drinque com ele", diziam os amigos. A verdade é que o tal momento nunca chegou. E, durante anos, lá fui eu tomando a sopa pelas bordas, juntando os fragmentos que me chegavam sobre as histórias que o envolviam com personagens tão polêmicos quanto Ricardo Teixeira, Dr. Abdelmassih e Renan Calheiros. A uni-los, indistintamente, o inferno em que estes vivem, a toda hora assolados por indiciamentos, processos e ameaças iminentes de prisão. Quem seria Mario Rosa, portanto? Médico de urgência, criminalista ou babalorixá? Pois bem, desde o último sábado, sei que o personagem é, na verdade, uma mistura de tudo isso. E, seguramente, algo mais. Pois, como diz um ditado caro a Said Farhat: "o jornalismo leva a tudo, desde que se saia dele". E ele deixou as redações há muito tempo. 

Sim, Mario Rosa (foto) é um multitarefa, para simplificarmos. Desde junho, a editora Geração colocou no mercado seu livro de reminiscências, cujo título dá nome a este artigo. E cujo subtítulo vai além na sutil elucidação: "Memórias de um consultor de crises". Na verdade, eu já lera alguns trechos que tinham sido publicados no portal UOL, em fins de 2016. Mas, para gente como eu, ter o livro em mãos, cheirando a tinta de impressão, é o que dá tangibilidade ao arrazoado que brotou um belo dia das telas. Mesmo que dito livro pese 650 gramas e deslinde histórias ao longo de quase 500 páginas. Mas, pergunto: e daí? O que representa isso se você mal consegue dormir até ler o último parágrafo? Pois foi o que aconteceu comigo. Tendo comprado-o no aeroporto do Recife, na tarde do sábado, a leitura me segurou até o "Manhattan Connection", mais de 24 horas depois. Ufa!  

Mas vamos por partes. Mario Rosa não é o único consultor de crises de que ouvi falar. Aliás, na escala do estresse absoluto, já tive longas conversas com negociadores profissionais de sequestro. Um deles tinha participado, até então, de 110 casos, com apenas um óbito. O que não torna os casos relatados por Mario menos palpitantes. Como ele próprio vivenciaria na pele, algo de fundamental muda na percepção do mundo quando se era poderoso até a véspera, e acorda-se de madrugada, com batidas nervosas à porta. Logo a sala é invadida por um batalhão de encapuzados, fortemente armados, que começam a abrir gavetas e inquirir sobre pedacinhos de papel de há muito esquecidos, onde pode morar a evidência que vai incriminá-lo. Nesse contexto, o livro é quase uma auto-dissecação pelo fio de um bisturi que de tudo viu. Além de uma peça de defesa não-convencional. Em suma, relata o calvário de um oncologista com câncer, no dizer dele.    

Na verdade, Mario Rosa se confessa cansado da atividade polivalente e diz ter pendurado as chuteiras. Produto da confluência de uma infância difícil com o caldo de cultura de Brasília, Mario nasceu para resplandecer em cortes. Não tenho dúvida de que também teria feito bonito em Washington, Pequim e, em certa medida, em Moscou. Antes de aparecer boiando no Moskova, já estaria em Londres, tomando um Courvoisier ao pé da lareira. Não que não haja um Mario Rosa em Paris, Frankfurt e Tóquio. Mas o espaço de manobra nessas plagas talvez fosse menor do que o do Planalto Central. Tudo isso se reduz a conjectura se não ficar claro que Mario criou para si o que se chama na literatura de negócios de um "oceano azul". Ou seja, nadou em raia própria, indo muito além do oceano vermelho da assessoria de imprensa ou da consultoria em avaliação de riscos. Interessante é perceber a inteligente dicotomia com que formatou seu nicho. 

Nesse contexto, reza ela que boa parte dos clientes entrava pela ambulância do SAMU. O atendimento era caloroso, paciente e gratuito. Na verdade, muitas vezes se resumia a apresentar pessoas, sugerir uma frase de efeito ou desdramatizar uma situação que atormentava o indivíduo. Enfim, Mario prescrevia um sublingual ou um anti-distônico. Segundo ele, ao agir assim, adensava seu repertório de vivências e, como é normal na vida, mais adiante se habilitaria a receber um precioso favor em troca, se precisasse acionar a agenda. Outros tantos clientes – como Ambev, Casino ou CBF –, pagavam salgado pelos demais. E, geralmente, davam entrada em apelo de dor, com septicemia de imagem, tentando sobreviver às falanges de execução midiáticas, sedentas por sangue corporativo. Aprendiz osmótico, conta ótimas histórias sobre Duda Mendonça e Nizan Guanaes. Como bom baiano que é, não poupa conterrâneos de confete. 

Pensando bem, o melhor que você faz é comprar o livro para tirar suas conclusões. Se Mario Rosa ficou milionário ou não, para mim é de somenos. Pois a isso estão fadadas as inteligências superlativas embora seja patético o medo dele em voltar aos tempos de vacas magras, o que mostra como ricos são vulneráveis a filigranas de adega. Se há exageros ou omissões, isso também é superveniente mesmo porque a história é dele. Importante é o ritmo alucinante de leitura, propiciado pela adesão irrestrita à oralidade, aqui posta em contraposição à linguagem empolada dos tribunais. O que não impede que sejamos agraciados com algumas pérolas de reflexão. Senão, leia esta: "A vida acontece nos silêncios, na distância, nas pausas, na troca de olhares, nos erros de avaliação, nos enganos, no autoengano, no esquecimento, na autocritica, na simpatia ou na antipatia, no acaso".    

Dado o recuo do tempo, creio mesmo que tinham razão os tantos amigos que diziam que teríamos feito uma boa mesa. Ele com os bastidores do Brasil, e eu com meu repertório de mundo, teríamos dado boas risadas, se ambos estivéssemos em nossos bons dias, o que nem sempre é evidente. Quem quiser que acredite na aposentadoria que ele anuncia, de resto merecida. Segundo confessa, ganhou o equivalente a 600 anos de salário médio de um bom jornalista, Doravante, quero tê-lo em meu radar. Mesmo porque no dia em que se escrever a história real do Brasil contemporâneo, e se quiser entender talvez a grande catástrofe que foi a construção de Brasília, Mario Rosa há de ser referido em mais de uma passagem. Da mesma forma que, como ninguém, ele eviscerou a imprensa e os credos onipotentes do jornalismo do Brasil e do mundo.

O livro de Rosa é, portanto, o libreto da ópera-bufa "Terra Brasilis", onde pontifica 1 milhão de solistas e outros 200 de espectadores perplexos. Somos o maior teatro ao ar livre do mundo. Ou, como alardeavam os circos, o maior espetáculo da Terra. 


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