A eterna adolescência de Trump

George W. Bush aparece hoje com ares de estadista, quando comparado ao republicano

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

A eterna adolescência de Trump, por Fernando Dourado Filho

Muitas vezes tento imaginar como funciona a cabeça de Donald Trump. Ou seja, no que pensa este senhor quando, de olhos fechados, se entrega aos cuidados do cabeleireiro que lhe vem afofar as madeixas. Pois bem, confesso que requer grande esforço de abstração porque, embora seja o presidente dos Estados Unidos, ele pouco se empenhou em angular sua visão de mundo (sic) segundo os requisitos do cargo. Pelo contrário, reduziu-os ao tamanho de um banal cidadão médio, desses que a gente encontra no monotrilho de Las Vegas ou nas arquibancadas de um bisonho rodeio no Meio-Oeste. Assim sendo, em prova candente de que as coisas sempre podem piorar, George W. Bush aparece hoje com ares de estadista, quando comparado ao republicano que veio a ocupar a cadeira que foi dele por intermináveis oito anos. Isso, é claro, tem a ver com noticiário da semana que termina. Senão, vejamos. 

Ora, Donald Trump não teria o direito de perder de vista um fator meridiano. Quanto mais desastrados e omissos são os EUA no cenário global, maiores as chances de que outras forças hegemônicas, senão imperiais, ocupem um espaço que competiria ao Ocidente. Dito de outra forma, perde voz o eixo democrático que espelha nossa tradição e cultura. Daí que pegar o boné e dar as costas à Unesco, abre espaços para que se agigantem outras potências que ali veem uma chance de adensar o chamado "soft power". China e Rússia exultam diante de recuos similares por razões que nada têm a ver com a estima pela instituição. Pois passam a ser os patrocinadores "Master" da educação e cultura aos olhos de países que, efetivamente, precisam do fortalecimento de instâncias multilaterais. Para agravar a defecção, não há quaisquer preocupações em apresentar contrapropostas. Ele, simplesmente, como um adolescente, reitera que não quer porque não quer. 

Posições sectárias podem, naturalmente, ensejar adesões oportunistas. No capítulo em referência, lá se foi Israel aproveitar o mote e aderir a um capricho, abrindo um precedente perigoso na agenda do pequeno país. Por mais que seja tentador lavrar posições que equilibrem a frustração advinda da revisão do status de Hebron como cidade palestina, agentes políticos lúcidos sabem que não se ganha o jogo com a sabotagem do cenário pura e simplesmente. Ganha-se o jogo dentro da arena, interagindo e debatendo as assimetrias junto a quem de direito. O que vale dizer que foi um péssimo exemplo que, momentaneamente, incitou os mais frágeis a aderir ao abandono, mas que, a médio prazo, o gesto terminará por lhes ser deletério. Que Trump mal saiba o que seja a Unesco, nenhuma surpresa. Mas isso não deveria contagiar países marcadamente forjados pela multiculturalidade e por valores universais. Fora da arena, é Israel que enfraquece seu imenso potencial de construção de "soft power", de novo ele.  

Por último, só para nos atermos a uma sexta-feira, 13, lá chegam de novo as ameaças de rasgar os termos do Acordo de Desarmamento Nuclear, celebrado sob a égide de Obama, ex-presidente que Donald parece abominar. Ora, ao mero anúncio de que não assinará a certificação periódica, a China já se apressou em dizer que, para ela, nada muda. A Rússia também aproveita o vácuo para marcar uma posição, baseada, esta sim, numa geopolítica bem estudada. A Europa, pela voz de Merkel, foi bastante enfática em reforçar os melhores termos e, para entendedor mediano, está claro que isso gera disfunções sérias entre o próprio Irã, a Arábia Saudita e a Turquia, tendo a Síria bem no centro do tabuleiro. A virtual indiferença a qualquer argumento lógico em favor da prevalência de um voluntarismo cru e simplório, certamente desespera as cabeças pensantes do Departamento de Estado. Afinal, é fácil destruir com os pés o que foi feito com o cuidado das mãos. 

Trump é um adolescente impetuoso, a sós numa perigosa casa de máquinas. Aperta as alavancas só para ver o efeito.


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