Um nordestino em Londres

Entre curvar-me ao protocolo e prestigiar um amigo, ficarei sempre com a segunda opção

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho conta a história de um nordestino em Londres

Se você foi mimado pela vida, deve conhecer Londres. Se o destino lhe foi pródigo em afagos, é possível que já tenha almoçado às mesas alegres da Langan´s, em Mayfair, ouvindo os estampidos de rolhas de Champagne. Mas se você galgou todos os degraus da sorte, é quase certo que tenha jantado no lendário The Connaught. Em nenhum hotel do Reino, tudo é tão sóbrio e chique. Muitos dos comensais vestem ternos costurados a mão por alfaiates de Savile Row, que, segundo dizem, custam o equivalente a um carro médio. Discretos, os garçons falam sem mexer os lábios, como ventríloquos. E arquearão as sobrancelhas em desaprovação ao menor espirro de um desavisado. Estilo lá vale mais do que o dinheiro e não raro a recepção recusará reservas só pelo sotaque do interessado. Assim sendo, não é todo plutocrata russo ou xeique árabe que conseguirá uma mesa.  

Na véspera de voltar para o Brasil, depois de tê-lo visto lutar em vão pela vida de um parente num hospital de Oxford, levei lá o ilustre médico, então saudoso da boa brisa nordestina e da rotina do consultório. Confesso que temia que a reserva não fosse aceita, mas calhou de termos uma desistência, que acomodaria bem nós dois. Os mimos da chefe de cozinha já chegavam ao fim e, visivelmente, ele gostara das vieiras com trufas e do pato com tamarindo. Mas, talvez agastado com o ritmo do serviço, eis que as tensões que palpitavam no ambiente acabaram por irritá-lo, até que explodisse. Ora, como o garçom esquecera de abastecer de vinho seu cálice, virou-se para o salão e sapecou um sibilante "psiu, psiu", muito comum no Nordeste. Se vivesse mil anos, não esqueceria o olhar marmóreo do maître que, disfarçando a perplexidade, veio até nós a passo resoluto.    

"Não aceitamos gatos no recinto, Sir". Conhecido na Inglaterra como "catcall", o bizarro assovio do cardiologista não goza até hoje de muito prestígio no arquipélago. Mas entre curvar-me ao protocolo e prestigiar um amigo, ficarei sempre com a segunda opção. "Desculpe, ele só queria ser servido. Os últimos dias não foram fáceis. Tenho certeza de que nos perdoará". O maître fez então uma vênia insincera, após o que todos em volta suspiraram e voltaram ao faisão com chutney de ruibarbo, vencida a indignação. Sentindo que causara um "frisson", ele sorriu triste e murmurou, entredentes: "O matuto que sou não se emenda mesmo, não é?". Quando levantamo-nos para tomar o Armagnac e fumar um charuto ao pé da lareira, percebi que reforçou a gorjeta. "É para o leite do gato desse cabra besta". Sábado fui visitá-lo, puxei a história, mas o doutor não se conecta mais com este mundo. 

Onde quer que as brumas da demência o estejam levando, guardarei uma doce lembrança do dia.


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