Sobre tolos, lúcidos e espertalhões

De cada dez catalães, sete são massa de manobra, o que obedece, de certa forma, à regra universal

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Plebiscito na Catalunha para fazer com que a região se desmembre da Espanha

De minha longa vivência em Barcelona e adjacências, concluí que de cada dez catalães, sete são massa de manobra, o que obedece, de certa forma, à regra universal. Bom exemplo deles é Angel Ferrusola que se emociona cada vez que vai fazer suas preces no Mosteiro de Montserrat, a padroeira. Lá, já o vi coreografar estranha saudação ao hino. Em público, franze o cenho diante das touradas, brutalidade de andaluzes. De tempos para cá, passou a demonizar o infiel Neymar e, desde sempre, sataniza os mouros. Conhece bem os passos da "sardana", a dança típica, e odeia Madrid, onde mal foi. Fala catalão, mas não o escreve, e atribui tudo de que gosta ao gênio criativo de seu povo. Isso vale para o espumante, lá dito "cava", e para as salsichas, as "botifarras". Sozinho, é um cordeiro etnocêntrico. Em grupo, um barril de pólvora. A repressão ao plebiscito lhe deu alento para esbravejar com rosas na mão. Sua posição é inequívoca: vota "sim" porque acha que também é uma forma de render homenagem aos ancestrais.     

Para que haja sete como ele, dois dentre dez são almas serenas e ponderadas. Amam o idioma catalão e se divertem com as letras de Joan Manuel Serra. Deploram que o Franquismo o tenha banido, fato que deixou sequelas que nunca cicatrizaram. Bom representante deste grupo é Carles Ratera, dono de uma próspera malharia em Badalona. Desde sempre, vende metade da produção ali mesmo, e o resto na Europa. Casado com uma basca, passa férias na Galícia, onde tem um neto. Favorável a que a Catalunha esperneie para reter algo à altura dos 20% do PIB espanhol que representa, abomina dogmas e simpatiza com a Família Real, sem, contudo, confessá-lo. Vota contra o separatismo que vê como retrocesso. Sintomático disto foi a mudança de sede do tradicional Banco Sabadell para Alicante. Quantos outros casos teriam? A separação é um maná para os finórios que enxergam na manobra uma válvula de escape. É ideal, na verdade, para fugir das amarras de governança que lhes inibem a esperteza calejada. Vota "não". 

O arquétipo do espertalhão, os 10% restantes da amostragem, é Facundo Puigcorbé, que conheci certa feita em Arenys de Mar, diante de uma panela de arroz com "bogavante", a lagosta local. Aliado histórico do outrora poderoso Jordi Pujol, corrupto bem falante e carismático, o empreiteiro ladino vê no separatismo a chance de esquentar o dinheiro que tem em Andorra. Se tudo der certo, poderá se tornar estrangeiro na Espanha, onde tem negócios e tudo conhece. Assim, conseguirá se evadir do fisco madrilenho à última hora e passar os próximos anos trabalhando numa conveniente zona cinzenta. De mais a mais, para os ibéricos, de quem é parceiro irrestrito em diversas atividades, seria o cavalo de Troia perfeito para azeitar contratos com o novo "establishment" catalão e, como tal, venderia facilidades, nos cinco anos de impasse que se seguiriam à vitória do "sim". No fundo, a mudança o habilita a gritar "pega ladrão" e, de fininho, achar sua própria rota de fuga. Insufla os ânimos de Angel e insinua que Carles é um vendido. 

É uma pena, mas é uma ópera ensaiada há muito tempo. Só não se sabe ainda como acabará.    


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