Kazuo Ishiguro e o Nobel

Para muitos, a distinção é uma Copa do Mundo sem pulos nem cerveja. Mas onde a arte vale tanto quanto no gramado

Por Fernando Dourado Filho, de João Pessoa (PB)

Kazuo Ishiguro é o Prêmio Nobel de Literatura 2017

Hoje o dia começou cedo aqui na ponta do continente. Às seis da manhã, saí do hotel para uma caminhada pela orla e eram centenas os paraibanos que suavam a camisa para receber esta quinta-feira, dia da designação do Prêmio Nobel, na Suécia. Há pouco mais de dois anos, estava em Estocolmo e aguardava o trem para Linköping quando vi uma movimentação intensa na livraria da estação ferroviária. Bem humorados, jovens empilhavam livros do japonês Murakami nas prateleiras. "Mas ele já ganhou?", perguntei. Não, era só parte da campanha das editoras. Nos dias que antecedem a nominação, cada uma tenta adensar a visibilidade de seus cavalos de chegada. Desejei boa sorte e embarquei. No caminho, árvores desfolhadas e a placidez dos lagos me faziam pensar nas pequenas glórias terrenas. Pois bem, dias depois, já de volta ao Brasil, Svetlana Aleksiévitch empalmou o galardão e achei bom. Já a conhecia desde quando comprara dois de seus livros na Mondadori, de Milão, e tinha gostado bastante das vozes de mães desoladas pela perda dos seus em Chernobyl ou no Afeganistão. 

Ano passado, estava em Paris quando Bob Dylan foi anunciado. Quando do lançamento de meu "Nos passos de Fiszel Czeresnia e outras estórias", na Embaixada do Brasil, ainda quis enxertar na minha apresentação alguma palavrinha sobre o agraciado. Mas jamais teria conseguido fazê-lo sem música e, pensando bem, era totalmente superveniente uma alusão ao vate americano. No jantar que se seguiu, comentei com a família que naquele ano os livreiros deveriam ter sido flagrados desprevenidos porque ninguém apostava em Dylan. Seja como for, o anúncio do Nobel é sempre uma data simpática do calendário. E se torna ainda mais gratificante quando ocorre de já conhecermos o autor e com ele termos estabelecido aquele vínculo emocional que só a luz da cabeceira propicia. Toda intimidade digna de nota é forjada sob sua luminosidade filtrada. Quando o Comitê anuncia nomes como Vargas Llosa, Garcia Márquez, Saramago, Singer e Coetzee – para citar os mais evidentes –, é inevitável que seus admiradores se sintam parte de uma enorme conspiração do bem. 

E eis que chegamos a 2017. Ainda no começo desta semana, a professora Nancy Rozenchan compartilhou no Facebook um instigante artigo sobre alguns nomes fortes de autores judeus que estariam habilitados. Ousei então meter meu bedelho na conversa e apostei numa inusitada fórmula. Por que, por uma vez na vida, o Comitê não fazia na literatura o que é vigente em outras categorias e não divide o Prêmio entre Aharon Appelfeld, Amós Oz, David Grossman e A.B. Yehoshua? No fundo, embora tenha meu favorito nesse seleto quarteto, certo é que o tempo corre contra Roth e vejo no americano um monumento vivo. Será que a manhã de hoje seria a dele? Ou teríamos, o que não é incomum, algum escritor ou escritora menos midiáticos, pronto para galgar o estrelato entre hoje e a solene cerimônia real, nos últimos dias do outono? Já tinha tomado banho e trajado a indumentária dos compromissos palacianos quando soube pelo Twitter que o agraciado foi o nipo-britânico Kazuo Ishiguro (foto). O que senti? Ora, não achei ruim, embora ache que ele ainda teria tempo para essa consagração. Outros, talvez não. 

Assim sendo, quando chegar a São Paulo, vou garimpar entre meus livros o que tenho dele. Comecei a lê-lo em meados dos anos 1990 e gostei do que vi. Tudo o que diga respeito à multiculturalidade e a pessoas deslocadas me toca diretamente. O último livro dele que li em português foi "Os vestígios do dia", que comprei na Livraria Cultura, sem grande entusiasmo, mas que li de um fôlego, até porque adoro histórias de mordomo. Presenteei os amigos no Natal passado com o livro, mas não tive grandes ecos de retorno. Se ficou como peça decorativa em casa deles, eis uma excelente ocasião para lê-lo com outros olhos. Se Kazuo vive hoje um dia especial, imagino que os demais tenham suspirado aliviados. Hoje poderão dormir o sono que não vinham conseguindo cravar nos últimos dias, dedicados a driblar jornalistas pegajosos a lhes perguntar sobre suas expectativas. Nessas horas, sempre lembro da expressão de Singer diante dos repórteres que queriam saber, horas depois da notícia, se ele estava surpreso. Levantando os ombros, disse: mas por quanto tempo um homem aguenta ficar surpreso? 

Para terminar essa nota que já se faz extensa, e abraçar a missão que me trouxe à simpática Paraíba, é inevitável conjecturar minimamente sobre as chances do Brasil. Pois bem, tenho 59 anos e espero que consiga ver o Prêmio aportar à nossa terra em meu tempo de vida. À medida que olhamos em perspectiva, fica claro que nunca estivemos tão perto de ganhá-lo quanto com meu conterrâneo João Cabral de Melo Neto, e com o também poeta Carlos Drummond de Andrade. De resto, não vejo apelo universal em muito do que se escreve no Brasil de hoje, mas tenho visão de leitor, não de crítico. Lamento não ter explorado essa vertente com meu também conterrâneo Marcelino Freire com quem tomei um longo voo sábado passado. Poderíamos ter falado menos de Caruaru e mais de Estocolmo. Como em tudo na vida, o Brasil tem ainda um longo caminho a trilhar e, por enquanto, só a soja nos redime. É hora de trabalhar. Dentro de mais um ano estaremos vivendo de novo todas essas emoções. Para muitos, o Nobel é uma Copa do Mundo sem pulos nem cerveja. Mas onde a arte vale tanto quanto no gramado. 


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