Códigos de Las Vegas

Como sempre acontece, salvou-se o aprendizado que me levou a concluir que não faria questão de voltar lá

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Cidade de Las Vegas, nos Estados Unidos

Dia desses pensava na única visita que fiz a Las Vegas (foto). Ela data de 10 anos e o convite partiu de um cliente interessado em visitar uma feira de tecnologia audiovisual. Eram 7 da manhã quando chegamos ao aeroporto e nos colocamos ao lado da esteira de bagagem. Devo admitir que jamais me sentira atraído pela capital americana da jogatina, mas até por isso achei que sairia de lá com uma boa surpresa. A primeira delas foi ver que metade dos passageiros do avião, não querendo perder tempo, já se atracava às primeiras máquinas de jogo do saguão, tamanha a sofreguidão em se entregar à emoção mais chamativa da cidade. Era aberrante, especialmente para quem nunca teve o jogo entre seus muitos pecadilhos.

Chegando ao hotel imenso, onde pontificava uma Torre Eiffel bastante alta bem ao lado, veio a segunda surpresa, irmã gêmea da primeira. Estranhando a quantidade de gente que se servia de bebida de bandejas e espalhava as fichas para apostar na roleta, voltei a conferir as horas no relógio. Não, não estava enganado. Eram mesmo 7 da manhã, mas aquelas pessoas não tinham mais noção do que era dia ou noite. O único tempo que contava era o do cassino. Mais experiente do que eu nessas lides, meu cliente sabia de casos em que os jogadores não se ausentavam sequer para urinar, tamanha a compulsão. Melhor nem pensar na cena e nos círculos molhados que se alastravam à volta, pelo que ele me disse.  

A temporada em Las Vegas foi lastimável, a bem da verdade. Mas, como sempre acontece, salvou-se o aprendizado que, desde então, me levou a concluir que não faria questão de voltar lá, salvo em circunstâncias em que o interesse profissional e pecuniário falassem mais alto. Jamais, de qualquer forma, por iniciativa própria ou com quaisquer projetos de lazer em mente. Hoje me pergunto, diante do noticiário ainda confuso sobre um massacre ocorrido nas últimas horas e que vitimou dezenas, o que me ficou daqueles dias abrasivos onde o único consolo era contar com ar refrigerado em quaisquer dependências interiores da Strip, a luminosa faixa de luzes onde a vida de Las Vegas acontece. 

Pois bem, destacaria três conclusões. A primeira é que praticamente não há vida ao ar livre. Como visitante bom é aquele que alterna momentos entre a roleta, os restaurantes e os shows, todos os hotéis estão interligados por passarelas subterrâneas ou monotrilhos. Assim, ninguém vai se expor à temperatura saariana para comprar um jornal na esquina. Aliás, a última frase traz duas incongruências. Pois lá mal tem jornal e esquina, quase nenhuma. O segundo é que o gosto pelo "kitsch" é surreal e as pessoas parecem achar belas as reproduções de ruas parisienses, gôndolas e canais venezianos e várias apostas em "mish mash" cênicos que mais parecem o Apocalipse vestido de gala. 

Por fim, chamou-me a atenção certo moralismo, o que não é incomum na paisagem dos Estados Unidos. Diante de moças que corriam de seguranças pelos corredores do hotel, perguntei do que se tratava. Eram prostitutas, disse um rapaz. Mas o que haveria de errado nisso, se ali tudo tem preço? Ademais, não se diz que "o que acontece em Las Vegas, fica em Las Vegas"? O puritanismo americano se faz presente onde menos se espera. Tenho amigos que curtem muito a cidade e que já estiveram lá várias vezes para assistir às apresentações de Celine Dion e lutas marciais sangrentas. Não, não é e jamais será minha praia. Eis que a cidade de Nevada amanheceu enlutada na segunda-feira. Por ironia, vi no "Fantástico" de domingo matéria sobre fuzis Kalashnikov. 

Hoje as tramas se uniram e conclui que nossos pensamentos nem sempre são de todo fortuitos.


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