A higiene de vida dos pragmáticos

Não há prêmio maior na vida do que ser o que se é

Por Fernando Dourado Filho, de Porto Alegre (RS)

Fernando Dourado Filho conta a história de um amigo pragmático

Mal nos instalamos e pedimos uma bebida, eis que ele já foi direto ao ponto. E pouco mais teríamos a dizer, meu amigo e eu mesmo, pela hora que durou aquele encontro inusitado num restaurante alemão de São Paulo. Calvo, 70 anos bem contados, solteiro, dois filhos e namorando uma moça de 30, este engenheiro é um viajante inspirado, um homem que parece fazer valer cada minuto e, como não, um sujeito sábio. Indiferente ao que possam dizer de seus valores ou estilo de vida, me fez pensar nos dias seguintes que não há prêmio maior na vida do que ser o que se é. Afinal, ninguém pode fazer isso em nosso lugar. Abaixo, três pontos que me chamaram a atenção nas digressões claras que ele fez naquela noite. 

"Pela manhã, não ligo nem televisão nem computador. Não quero poluir um momento solene do dia com capítulos da operação Lava-Jato ou Castelo de Areia. Prefiro meditar meia hora na varanda, acolher o sol, alongar os músculos e tomar um café da manhã de chá, frutas e queijo branco ouvindo Chopin. Chegando ao escritório, ligo para meus filhos para saber deles e de meus netos. Procuro me inteirar sobre seus planos. E então me volto para meus 10 funcionários para acompanhar como está o atendimento a nossos clientes. Depois das 10 horas, retorno chamadas, mando cotações, cobro, vendo e percorro meu check-list de prioridades. Almoço frugalmente e procuro sair do escritório às 4 da tarde, no mais tardar". 

"Lá pelas 5 horas, dou uma olhada no noticiário. A essa hora, o que há de "fake news", de sensacionalismo, de meias verdades e factoides, terá decantado e a adrenalina das pessoas envolvidas terá baixado. Então apuro o essencial dos fatos e vejo como eles podem afetar minha família, minha empresa, meus amigos e clientes. Sei que está fora de meu alcance resolver as mazelas que assolam o Brasil. Por outro lado, posso e devo dar uma contribuição ao otimismo e ao pragmatismo num entorno mais próximo, orientando os menos experientes a ir adiante, sem se deixar paralisar pelos fatos negativos. Mas se você fica plugado no Twitter, o enredo vira novela e você se vicia em acompanhar capítulos irrelevantes". 

"Passo metade de meu tempo visitando clientes Brasil afora. Verifico a execução de nossos projetos de engenharia, oriento as equipes locais, escuto as pessoas com muita atenção e aprendo muito tanto com o pessoal de chão de fábrica como com empresários visionários. Trato todos como estou te tratando aqui. Com clareza, simpatia e objetividade. Quero viver muito, mas sei que não tenho tempo a perder. Tenho horror a conversa fiada com gente desocupada. Minha namorada é linda e cheia de vida. Quero ajudá-la a crescer, sei que não sou eterno. Meus momentos a dois com ela são os melhores que se possa imaginar. Viajamos, nos divertimos e aprendemos juntos. Esse é meu conceito de revolução, caro amigo". 

Pergunto: como não admirar uma figura dessas?


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