Afinal, onde vamos parar?

Descobri gente que não sabendo lidar com ambientes plurais, recolhe-se a uma conserva cultural de autopreservação

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Fernando Dourado Filho analisa o analfabetismo funcional brasileiro

Dedicado a Norberto Lichtenstein que não tem medo de dizer o que pensa e sabe fazê-lo com propriedade


Aos 10 anos, lá pelo terceiro primário, tínhamos que saber a tabuada na ponta da língua. Não muito tempo depois, alguns de nós desenvolviam a habilidade de fazer as quatro operações mentalmente, até mesmo quando envolviam vários dígitos. E, é bom que se diga, isso acontecia até com os que tinham aversão aos números e preferiam a prosa. Pois bem, devia eu já ter uns 30 anos, lá pelo final da década de 1980, quando comecei a ver as pessoas sacarem calculadoras do caixa de padarias e subtrair 7 de 10, para saber que tinham a restituir um troco de 3. O que era aquilo? Conforme fazia quando diante de raros analfabetos, silenciava e torcia para que estivesse diante de um caso de exceção. Mas logo vi que o fenômeno aberrante se tornava regra e que a prática era geral. Pouco depois disso, tomei conhecimento da existência de analfabetos funcionais em profusão. Era gente que lia, mas que não sabia interpretar o texto. 

O tempo passou e cada dia presto mais atenção aos aspectos básicos da cognição adulta na vida do dia a dia. Ao dar palestras em universidades privadas, vi-me tomado de certo pavor com o cenário de devastação. Não era raro que as pessoas sequer soubessem formular uma pergunta sobre o conteúdo transmitido. Ou bem não tinham entendido nada, e a culpa era minha, ou se sentiam diminuídas ou intimidadas para abrir a boca e dar seu recado. Conversando na Polônia com um amigo professor em viagem de trem entre Varsóvia e Gdansk, ele me disse que seus alunos tinham dificuldade em redigir cinco linhas sobre seus estados de espirito diante de cada uma das estações do ano. E que, ao pedir uma redação a respeito, recebia textos descaradamente copiados na Internet. E vejam que estamos falando de um país onde a educação básica é mil vezes melhor o que a média da nossa. 

Mais recentemente, tive um choque ao entrar em redes sociais e conversar, talvez pela primeira vez, com dezenas de desconhecidos, gente com quem talvez jamais venha a estar um dia. Pois bem, a partir dos comentários dos posts, percebi que alguns correspondentes tinham coisa boa a dizer, mas não conseguiam. Muitos não tinham nem conteúdo nem dominavam a forma de fazê-lo. Pouquíssimos sabiam dar nome aos bois e, em meio a tudo isso, havia uma manada digital que repetia frases feitas ou que, simplesmente, não era treinada na arte de comentar com elegância e concisão, sem querer se mostrar espirituosa sem sê-lo, tampouco demonstrar uma intimidade que não existia. Descobri uma espécie nova de analfabetos sociais, gente que não tendo na vida o traquejo devido para lidar com ambientes plurais, recolhe-se a uma conserva cultural de autopreservação. Daí os inimigos novos, que não raro eram amigos antigos. 

Voltando ao andar térreo do convívio diário, são muitas as aberrações. Barista que não sabe tirar um café decente e toma um banho de água fervente diante da máquina; chapeiros que servem um misto dito quente com queijo ainda congelado; taxistas que se confundem com os caminhos mais básicos; encanadores que precisam voltar várias vezes para finalizar um serviço simples; comerciários totalmente descolados da atividade fim de seu ofício; médicos mal treinados nos rudimentos do acolhimento; políticos sem a menor noção de missão e, sobretudo, gente que parece não conseguir juntar duas pontas de um raciocínio crítico. Um passante comentava com outro que devido ao terremoto mexicano, horas depois do sucedido, os voos de Curitiba estavam chegando com atraso a São Paulo. De um rapaz de 30 anos que diz, de cabeça limpa, uma patacoada dessas, não se pode esperar grande coisa. Ou estou equivocado? 

Bem a propósito, e aqui finalizo, lendo a imprensa tempo desses, acompanhei o depoimento de um grande empresário da área da educação e fiz questão de registrar a estranha terminologia que ele queria propagar, relativa a seu não menos estranho credo. Falava ele de empreendedorismo (um conceito já palatável, mas longe de revolucionário); de empregabilidade (idem), e de um troço absolutamente pavoroso que, com orgulho, ele chamou de “trabalhabilidade”, certamente uma corruptela de alguma "workability" que lhe pareceu altissonante. Dessa indigência intelectual, dessa nefanda educação "para o mercado" (no coração da universidade que ele preside), nada de perene poderá sair. Bons tempos os da tabuada, das gramáticas, da análise sintática, das redações e das reprovações letivas que puniam o estudante, preparando-o para uma ansiada volta à primeira liga, nada diferente dos times da Série B que lutam para ascender à Série A . Esse é meu credo.


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