A véspera do fim do mundo

Imaginando o impacto, vejo a Terra rebolando no espaço sideral, totalmente sem rumo

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho fala como seria o final do mundo

Acabo de ler no Twitter que amanhã, sábado, a terra colidirá com Nibiru, um misterioso planeta. Fui então aos principais sites e, efetivamente, apesar de algumas controvérsias, há consenso de que o fenômeno assinalaria a virtual extinção de nosso lar, um dos mais belos do sistema solar. Já pensaram? Imaginando o impacto, vejo a Terra rebolando no espaço sideral, totalmente sem rumo, submetida às órbitas gravitacionais mais diversas. Ninguém fala da hora da colisão, mas pode ser qualquer uma. Se acontecer até as 10 da amanhã, estarei no aeroporto de Congonhas. Na hora seguinte, em pleno ar, voando para Confins, em Belo Horizonte. Se não pudermos pousar, talvez o piloto vá até o limite da autonomia e ache uma superfície plana, mas será difícil. Entre a tarde e a noite, poderei acolher o fim dos tempos num bar da Savassi. Na falta de mar, não verei a evaporação das águas, mas sentirei lá do alto os tremores do chão. Em que pensarei na hora derradeira? Melhor nem dizer.

Nada impede, contudo, que diante da fatalidade, possa me entregar hoje mesmo, na abertura da mais curta das primaveras, ao exercício de ver o lado bom dos fatos. Alguma coisa me diz que as pessoas sentem menos as perdas quando elas são de aplicação universal. A colisão com Nibiru é, por definição, a mais democrática possível. Isso porque ninguém lhe escapará ileso. Imagino Putin sendo levado para um "bunker" na periferia moscovita, na vã tentativa de colocarem-no ao abrigo do desastre. Mas isso de nada ajudará. Nessa hora, onde estará Meryl Streep? Em quem ela pensará quando a televisão noticiar um lacônico "Colisão em 4 minutos". Posso até ver Trump ajeitando o cabelo para dizer em rede nacional que os americanos precisam rezar e que ogivas nucleares já tinham sido disparadas em direção ao alvo numa última tentativa de destruí-lo antes do choque. Dirá que é uma triste herança da era Obama que não tomou as medidas preventivas cabíveis enquanto era tempo. 

De minha parte, vou perder muita coisa boa e pouco se me dá que todo mundo tenha de passar por provação semelhante. Eu estava bem entusiasmado com a perspectiva de passar o fim do ano nas estepes geladas da Ásia Central. Da mesma forma, imaginava lançar em 2018 novos escritos e, quem sabe, receber uma primeira crítica favorável a meu trabalho. Da biblioteca, de que nada tampouco se salvará, tenho 200 exemplares postos à parte, que vinha guardando, zelosamente, para os dias de poucos movimentos da velhice. Por que não tê-los lido mais cedo? Lamento especialmente por "Moby Dick" que dizem ser maravilhoso. No momento atual, poderia apostar que ainda teria pelo menos mais uns 10 anos de vida pela frente, e me confortará que minha mãe tenha vivido seus 85 com a mesma classe e, é claro, deplorarei que os muito jovens tenham perdido o que sequer chegaram a conhecer. Talvez assim sofram menos. Não pediria desculpas a ninguém por nada e tampouco viraria religioso de ocasião. 

De qualquer sorte, tenha tudo isso o desfecho que vier a ter, vou aproveitar esse resto de sexta-feira para listar as muitas chateações de que me verei livre, se tudo acontecer como os videntes estão dizendo. Assim sendo, nunca mais serei repreendido por não chamar a faxineira com a regularidade que deveria. Tampouco terei o desprazer de lidar com a expressão apavorada do zelador do prédio diante da síndica, num caso típico de que mesmo nordestinos podem ser muito brabos para repreender subalternos, mas covardes quando se trata de falar com os superiores. Nunca mais terei de fazer qualquer exame clínico chato e terei passado pela vida sem ter a mais vaga ideia de como eles funcionam na prática. Hoje à noite poderei comer fruta sem me preocupar em escovar os dentes e estarei indultado em definitivo do castigo que representam omeletes queimadas, desmandos no trânsito do Recife, da expressão cínica de Renan Calheiros na televisão e das cavilações da imigração americana.

Assim sendo, nunca mais ouviremos falar da questão ucraniana e as bombas ameaçadoras da Coreia do Norte terão sido reduzidas a um experimento infantil, quase ingênuo. Gilmar Mendes e Rodrigo Janot, se estiverem voando juntos de novo, poderiam decidir no braço suas desavenças. O Brasil se extinguirá sem conhecer a reforma da previdência e a Copa da Rússia não terá um só jogo. Nas aldeias africanas, as pessoas morrerão dormindo, totalmente alheias à catástrofe iminente. Por fim, os planos da China de rasgar novas "Rotas da Seda" mundo afora, em jogada de longo alcance geopolítico, serão reduzidos a pó de traque e religiosos de todos os matizes talvez se deem conta de que, no fundo, todos oravam para uma só divindade e que o castigo supremo está a caminho. Em algum lugar da Califórnia, um grupo de pessoas receberá o cataclismo fumando profusos cigarros de haxixe e estas mesmas rirão quando os primeiros roncos emanarem do chão e um paredão de oceano despontar no horizonte.

O lado frustrante desses exercícios – pelo menos para muita gente que se deixa levar longe demais pela imaginação –, é que caso nada disso se materialize, como aconteceu até hoje, é desolador constatar que continuaremos expostos a tudo o que nos deixa irremediavelmente infelizes. Assim sendo, se a Terra continuar girando em torno do próprio eixo no domingo, prepare-se para telefonar para D. Laudiceia para vir fazer a faxina e correr o risco de perder os seus preciosos papeizinhos de anotação de mesa de bar. Ao cruzar a guarita, lá estará o zelador desprezível que é valente para com os subordinados e um rato diante da síndica. Pode ser que qualquer hora dessas você tenha de entrar numa daquelas máquinas em que não pode se mexer, como se fosse um morto-vivo. Por fim, você comerá omeletes carbonizadas e escovará os dentes antes de dormir. No noticiário da manhã seguinte, por fim, verá Renan Calheiros que rirá da cara de todos nós. Consolem-se, amigos, ainda poderemos colidir com Nibiru.

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comentarios




Marcelo

Isso ai é uma mentira.quem sabe o dia é a hora é só Deus!

Juliana

Ler tudo isso me deu uma imensa vontade de que essa colisão seja verdadeira. Pois seria fácil somente fechar os olhos pra tudo que está acontecendo e... "puff" acabou tudo, já era! Seria tão bom parar de chorar...

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