Eminências pardas

Algumas empresas apresentam uma nítida coluna vertebral que vai da garagem à presidência, em sinuosa capilaridade

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho discute a hierarquia dentro das empresas

Empresas familiares constituem um ecossistema ideal para o aparecimento de figuras sinistras que, no afã de se mostrar à altura da autonomia que recebem dos patrões, esmeram-se em fazer mexericos, semear cizânias, punir colaboradores e pilotar uma rede informal de contatos que lhes cacife o prestígio junto ao empregador. Essa gente dita "de confiança" pode ser de ambos os sexos, qualquer idade e ocupar posição em diversos pontos do firmamento hierárquico da organização. Para estar à altura da reputação de eminência parda – geralmente é o máximo que granjearão ao longo da vida –, manda a regra que sejam opacas no desempenho de suas funções de origem, ficando a excelência preservada para o exercício de instintos menos nobres. Daí quase sempre se acobertarem sob a denominação de assessores, assistentes e auxiliares.   

É claro que o aparecimento dessas figuras se deve em grande parte ao estímulo continuado de seus chefes que, em última instância, "sem querer, mas querendo", pedem delas uma cota periódica de fofocas, calúnias e delações, isso bem antes de estas últimas virarem instrumento de sobrevivência consagrado no tecido da sociedade brasileira. Assim sendo, cabe aos detentores dessas redes paralelas de poder aliciar, a seu turno, seus próprios tentáculos na chamada "rádio-peão" que, mediante sistema de favores e proteção, alimentarão o sistema piramidal. Não é por outra razão que algumas empresas apresentam uma nítida coluna vertebral que vai da garagem à presidência, em sinuosa capilaridade. Temidas, odiadas e, quase sempre, bajuladas, elas dependem estritamente da performance. Quando o chefe cai em desgraça, viram alvos preferenciais.  

Mas nada como citar alguns exemplos para exemplificar o que digo. Lá pelos idos dos anos 1980, aportei numa empresa de grande porte onde a hierarquia era quase maçônica. Mas bastou uns dias para perceber que ele pairava na mesma altitude que os diretores e, era melhor não duvidar, tinha mais força do que qualquer membro individual do corpo gerencial, uma portentosa bancada de uma trintena de engenheiros, químicos, economistas e administradores. Escudado pelo título de assistente administrativo, aquele senhor mulato, de calva ampla, lentes fundo de garrafa, hábitos solitários e andar apressado, era o primeiro a saber sobre as greves que o sindicato urdia, quem pretendia aderir e quem eram os simpatizantes. Se havia esse lado estratégico, por assim dizer, a ele tampouco escapavam os romances de figurões com as moças suburbanas da fábrica. 

Tudo era questão de poder. No caso referido, era ele o primeiro a saber quem seria promovido, quem passaria doravante a figurar na chamada "folha de pagamento confidencial", quem se excedera na bebida numa festa, quem andava falando à boca pequena dos acionistas e quem estava a um triz de ser demitido. Da mesma forma, cabia-lhe divulgar na última hora se faríamos uma ponte entre o fim de semana e o feriado; credenciar prestadores de serviços para a área administrativa e puxar conversa com motoristas e faxineiros sobre os fatos mais relevantes que tinham ouvido. Ato contínuo, se alguém aparecesse de supetão em sua sala, ela imediatamente jogava o que estava lendo na gaveta e a fechava à chave antes que o interlocutor se aproximasse. Apesar da aura sinistra, não devia ser má pessoa. Perdera o filho único precocemente e era uma alma solitária.

Nesse contexto, já vi garçons, copeiros e, sobretudo, motoristas e pilotos, ser alçados a verdadeiras eminências pardas dentro das empresas. No caso dos dois primeiros, geralmente eles funcionam como leva e traz de escalões intermediários onde o poder supremo se concentra nas mãos de secretárias e assistentes híbridos. Já no caso dos últimos, eles prescindem de atravessadores e, como a segurança física das instâncias máximas está em suas mãos, o poder que lhes cabe é de vida ou morte. Conheci um diretor poderoso que foi exonerado por conta da antipatia pessoal de um piloto de jato que teria se sentido desrespeitado num voo de Fortaleza para São Paulo. Motorista e seguranças têm forte influência sobre as famílias dos dirigentes, o que também resulta em capacidade de influenciar, mesmo quando não é esta a intenção deles. 

Seja como for, nada disso é mais tão agudo quanto já foi no passado. Vale, contudo, registrar que o fenômeno é particularmente acentuado em países da América Latina, África, Europa Mediterrânea e Oriente Médio. Isso dito, vale concluir que as sociedades patriarcais e de feição particularista – onde a lei NÃO é igual para todo mundo – são as mais propícias para o florescimento desse fenômeno. Não se pode, portanto, conceber sua proliferação nos ambientes mais arejados dos povos ditos "femininos" – Escandinávia e Holanda, por exemplo – onde são comuns os padrões universalistas, as pirâmides hierárquicas mais achatadas e as regras de governança mais transparentes. Para eles, as ordens do chefe têm peso de dogma. Não são questionadas, sequer na hora de eles próprios irem para o sacrifício. Como velhos bolcheviques, o partido sempre terá razão. 


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